As ilusões perdidas

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Publicado quinta-feira, 11 de maio de 2006 as 16:32, por: cdb

As revoluções não se exportam, como nos ensina a experiência histórica. De nada nos adiantam as explicações cansativas sobre os limites impostos ao sistema socialista pelo resultado da Segunda Guerra Mundial, como, antes deles, o malogro das revoluções dos trabalhadores europeus em 1848, ou o fim sangrento da Comuna de Paris, que Marx identificou como sendo frustrado “assalto ao céu”. Não há, nessa constatação, qualquer juízo de valor moral, mas, simplesmente a conclusão objetiva de que los sueños, sueños son.

Os cubanos, pressionados pelo grande e próximo inimigo, tentaram exportar os seus sonhos para a América Latina. Agindo assim, mobilizaram as forças contra-revolucionárias do Continente, que contaram com a substancial ajuda dos norte-americanos. A conspiração se fez da Argentina à Nicarágua, com rios de sangue, torturas, angústia e atraso econômico e social. No Brasil, e os que viveram aqueles dias conhecem bem o processo, reuniram-se católicos ultramontanos aos banqueiros, banqueiros aos grandes industriais, grandes industriais aos fazendeiros e à velha e golpista UDN. As eleições de 1962 foram conspurcadas com o dinheiro da CIA, transferidas ao chamado Instituto Brasileiro de Ação Democrática. Nós sabemos o quanto nos custou o período ditatorial.

Não conseguiram os cubanos realizar o que pretendiam. Justifica-se o seu gesto: se conseguissem acender simultaneamente vários focos revolucionários na América Latina, teriam mais condições de construir internamente o sistema desejado. Não se trata, portanto, de discutir o problema do ponto de vista moral, mas sob o quadro histórico em que ele se pôs.

Agora surge outro movimento revolucionário, um pouco diferente, mas com a mesma natureza ideológica, na Venezuela. As atitudes de Chávez estão ajudando os povos do Continente? Provavelmente, não. O militar venezuelano está sendo picado por perigosa vaidade. Viaja pela América Latina como se quisesse repetir, via aérea, a saga que Bolívar viveu montado em seu cavalo. Sua postura é a de um líder continental, sem perceber que a correlação de forças não permite qualquer queima de etapas. A construção de uma sociedade justa exige mais do que a vontade das pessoas: reclama as chamadas condições objetivas. Estas exigem ação política firme, mas prudente. No auge da Primavera de Praga, temendo o que viria, ou seja, a invasão soviética, veterano comunista publicou artigo de advertência aos açodados, sob o título de Pomalu, ale dusledne, ou, seja, devagar, mas firme.

Estávamos trabalhando no velho projeto de integração latino-americana, dentro daquela visão histórica de que os interesses econômicos comuns conduzem a uma fraternidade política. Isso vem ocorrendo no mundo moderno desde a experiência bismarquiana da Zollverein, ou seja, a união aduaneira dos estados alemães. Com a união aduaneira foi possível a união dos velhos principados, sob a hegemonia da Prússia, a guerra contra a França e a coroação do Kaiser. A mesma experiência orientou a formação da Comunidade do Carvão e do Aço, núcleo que levaria ao Tratado de Roma e à atual União Européia. Mesmo assim, a União Européia ainda se confronta a problemas sérios de convivência. Depois de tentativas frustradas, as coisas pareciam bem encaminhadas com o Mercosul.

Mas percebemos, agora, que há várias Américas latinas. Em primeiro lugar, há uma América Latina portuguesa e uma América Latina espanhola, e uma tradição de rivalidade que herdamos da Península Ibérica. Os portugueses conseguiram o que outros povos peninsulares não obtiveram, não obstante sangrentas revoltas armadas, ou seja sua independência política do Reino de Castela. Ainda agora, a Espanha se confronta com mais uma tentativa de ampliação da autonomia federativa de que goza a Catalunha, com a reação dos velhos imperialistas de Madri, enquistados nas Forças Armadas da Espanha.

A aliança entre Chávez e Morales – com todo o respeito pela soberania dos dois países – parece mais influída