As belas e as inguinorânssias

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Publicado terça-feira, 31 de dezembro de 2002 as 14:07, por: cdb

28.Dez.2002 | Eu agarântio! Poderia fazer minhas as palavras de Seu Creysson, grande porta voz desses tempos presididos pelo português trôpego, e agarantir sobre a televisão em 2002: foi môrnia! Quase frígidia! Não teve uma cara símbolo, como foi a do guerrilheiro Sílvio Santos em 2001, que pegou o jogo do Big Brother comprado pela Globo de uma produtora holandesa e lançou na frente, sem gastar um tostão de royalty, com o nome de Casa dos Artistas. Se em 2001 quebrou o pau, em 2002 venceu a ética. O melhor da televisão foi o jornalismo da Globo, com uma cobertura democrática, sem privilégios, da campanha eleitoral. Da mesma forma que o Jornal Nacional deixou de ser um vilão, sempre escondendo as boas causas, as mulheres também ganharam novas vozes. Saia Justa, Menina Veneno e Sex and the City discutiram uma personagem moderna e cada vez mais em busca de equilíbrio. Não mais aquela cozinheira que ficava diante da tela copiando receitas. Nem mais aquela doidona radical que acabou de descobrir a posição de número 184 e quer passar rápido para a 185. As jovens de Menina Veneno falaram de estripulias sexuais com ar de muxoxo. As trintonas e um pouco mais de Saia Justa jogaram a cotação da mercadoria lá embaixo. Fernanda Young disse: “Sou ruim de cama.” E não se sentiu culpada por isso: “Homem nu é ridículo.” Com velhos assuntos resolvidos, as mulheres dominaram novos. Fátima Bernardes foi a melhor repórter da Copa do Mundo.

Eu gostaria de ter andado descalço do início da primavera ao fim do outono, gostaria de ter tomado mais sorvete, deixado bússolas, termômetros em casa, escalado montanhas, ter feito todas aquelas coisas que pede o falso poema do Borges espalhado pela internet. Acima de tudo gostaria de ter visto menos televisão. Do muito que vi, gostei:

O melhor da TV em 2002

A atividade na laje de Cidade dos Homens
O equilíbrio editorial do Jornal Nacional
O humor rápido de Pedro Bial no Big Brother Brasil-2
O simpático tour carioca dos Simpsons em Feitiço de Lisa
As trintonas assanhadas de Sex and the City correndo atrás de um procriador endinheirado
A inguinorânssia sagaz de Seu Creysson faz comício mônstrio em São Paulio
Regina Casé de fiscal da civilidade no Fantástico
Os Osbournes, melhor campanha anti-drogas
João Gordo esculachando geral no Gordo a go-go
As moças do Saia Justa fingindo que sexo não está com essa bola toda no Dia do Orgasmo

Do muito que vi, não gostaria de ter visto tanta gente comendo minhocas e baratas em games de diversas emissoras, principalmente na Rede TV! Eu poderia também fazer minhas as palavras de Carola Scarpa, a doida que invadiu a Casa dos Artistas em março. Ela viu a Feiticeira gritando “Desencana do meu rabo” para o Xis, e foi expulsa imediatamente do barraco depois de dizer “Ninguém aqui vale nada, que porcaria!” Carola foi boa crítica de televisão em 2002. A média foi ruim. A televisão continua desinteressada de participar das boas causas e contribuir para melhorar o seu espectador. Acha que quando o da poltrona é homem, não passa de um Chaves. Quando mulher, perfila-a como Betty, a feia. As novelas desabaram na audiência. Clone, com um enredo delirante, empadinhas de Dona Jura, rodas de pagode e umbigos na dança do ventre, ainda conseguiu prender a atenção. Esperrrrrrrança, com seus cinzas pretensiosos, sua trama leeeeeeeeenta, seus planos interminááááááááveis, trocou de autor – e fez com que personagens pudicas soltassem subitamente a franga e corressem atrás do atraso, quer dizer, da audiência. Teve muito João Kleber, muita Luciana Gimenez, muita Adriane Galisteu e nem a morte, em cena, de um ator de pegadinhas fez com que essa gente cancelasse a atração.

Nunca tantas pessoas comuns apareceram na televisão. Elas não foram apresentadas apenas em flashes jornalísticos, na rua, opinando sobre algum assunto do dia. As emissoras abriram seus estúdios, seus game-shows, programas de perguntas e debates para que esse homem e essa mulher comuns mostrassem