As barbas andinas

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Publicado domingo, 19 de outubro de 2003 as 18:19, por: cdb

Não poderia ter sido mais clara a análise do New York Times, em sua edição desta sexta-feira, sobre a crise boliviana. Trata-se do mais importante protesto dos pobres contra a globalização e o neoliberalismo. O jornal mostra que, ao contrário do que se prometia, a situação social na Bolívia só se agravou nos últimos anos.

“Os manifestantes indígenas – diz o jornal – podem ser pobres e falar mal e com sotaque o espanhol, mas eles têm uma mensagem poderosa. É esta: não à exportação do gás e outros recursos naturais; não ao livre comércio com os Estados Unidos, não à globalização de nenhuma forma, que não seja a solidariedade entre os povos oprimidos do mundo em desenvolvimento.” O que os pobres bolivianos estão pedindo, com o sangue que está sendo derramado nas ruas de sua capital, é que os deixem viver a sua própria vida, exercer a sua própria cultura, retirar da terra o que pode sustentá-los. O consumo milenar do chá de coca nunca os tornou piores nem melhores seres humanos. O que tem sido sua desgraça é a utilização da coca para a produção da cocaína – processo criado pelos “civilizados”. O mundo inteiro é consumidor do alcalóide derivado das folhas da Erythroxylon coca, usado para a produção de “coca cola”, como a imprensa norte-americana divulgou, quando se anunciou o plano de erradicação da planta, com a exceção das glebas autorizadas a produzi-la para a Coca Cola. A diferença entre uma garrafa de coca-cola, consumida pelos adolescentes, e uma pitada de cocaína é apenas a do tipo de refino da pasta de coca e, evidentemente, da quantidade usada. O uso da coca como droga, mediante o refino e a comercialização, se deve à civilização capitalista, não aos quíchuas e aimaras que sempre consumiram as suas folhas como tônico estimulante.

Informações de La Paz revelam que enviados de Washington estão comandando a repressão aos manifestantes. Nada a estranhar: eles sempre fizeram isso, aqui mesmo no Brasil, no Chile, na Argentina, no Irã, na Guatemala, na Nicarágua, em São Domingos, em El Salvador – enfim, no mundo inteiro. O governo brasileiro está agindo como deve. Não lhe cabe a acusação de que, no caso venezuelano, tem apoiado Chávez e, no caso boliviano, não tem a mesma solidariedade para com Sánchez de Lozada. Em primeiro lugar, no caso venezuelano, a vitória eleitoral de Chávez era incontestável, enquanto a de Lozada é o resultado da manipulação das elites e do governo norte-americano. Em segundo lugar, na Venezuela os pobres estão claramente com Chávez e, na Bolívia a situação é inversa. Mesmo assim, o governo brasileiro não se manifestou a favor de ninguém. Com a parceria dos argentinos, os brasileiros querem buscar o entendimento, a fim de conter a escalada da violência. E a atitude dos dois países – que têm fronteiras com o país vizinho – é perfeitamente legítima. Quando vemos arderem as barbas andinas, é normal que tratemos de colocar as nossas de molho.

A nossa situação, excetuada a questão étnica, não é melhor do que a boliviana. A miséria, na periferia das grandes cidades – como revelou o ministro Olivio Dutra – está para estourar em uma rebelião aberta. Milhares de trabalhadores dos subúrbios do Rio, de São Paulo, de Recife e Belo Horizonte – e até mesmo de Brasília, que tem o mais alto nível de renda do país -, não têm nem mesmo o dinheiro para pagar o ônibus e o metrô que os conduza para o trabalho e de regresso às favelas. Se os que têm trabalho se encontram assim, o que dizer dos desempregados ?

A lição maior da crise boliviana é a de que não podemos transigir nas conversações sobre a Alca. As concessões dos pobres aos ricos, durante as duas últimas décadas, nos afundaram ainda mais no charco da miséria e do desespero. Ampliar essas concessões é transformar em agonia as esperanças do continente – esperanças que começam a se reunir com a mudança de governo em Caracas, Brasília e Buenos Aires.

Mauro Santayana, jornalista, é colaborador do Jornal da Tarde e d