Aruanã – Delta de duas culturas

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Publicado segunda-feira, 30 de julho de 2001 as 14:53, por: cdb

Quem chega pela primeira vez à pequena cidade a mais de 300 quilômetros de Goiânia, às margens do delta dos rios Araguaia e Vermelho, deixa para trás todas as descrições encontradas nos velhos livros de geografia para encarar uma realidade que mistura o êxtase que apenas o pôr do sol sobre aquele espelho d’água é capaz de brindar a alma, com a certeza sombria de que no Brasil não há mais espaço para a cultura indígena. A miscigenação e a cachaça, os espelhos e as roupas levaram para sempre a inocência daquela tribo de Karajás que teima em permanecer em pleno território conquistado por brancos, hoje nem tão brancos assim. Assemelham-se, nativos e colonizadores, ao encontro das águas caudalosas alguns quilômetros acima, onde o Rio Vermelho, de águas verdes, começa a se misturar às águas escuras do Rio Araguaia para formar um dos maiores mananciais do Brasil.
Carros estacionados na praça central do vilarejo – em plena temporada – quando as praias surgem do nada às margens do rio, variam entre o sertanejo e o funk, em uma mistura alucinada de sons a todo volume. É o primeiro sinal de que a civilização chegou, no embalo de Chitãozinho e Chororó ou no embalo do tigrão e das tchutchucas. Raul Karajás, 45, cacique da tribo, situada a alguns metros daquela confusão, encara com a calma que os deuses das águas lhe concederam aquele tormento sonoro, para dizer que a democracia chegou às malocas, pelas mãos da Funai (Fundação Nacional do Índio), dos padres, pastores evangélicos e toda sorte de brancos preocupados, em tese, com o bem-estar de quem já vivia nestas terras desde tempos imemoriais.
– Não sou mais o cacique – explica Raul.
– Agora índio vota e aqui escolheram um karajás mais novo. Mas não tem problema, a gente vive conforme pode – reflete, entre uma e outra abanada de mãos para afugentar os mosquitos “pólvora” que chegam para infernizar a vida de qualquer um no fim do dia.
Na soleira da varanda de uma casa de tijolo, coberta de piaçava, Raul e a mulher dele, juntos com os quatro filhos, são apenas seis dos 74 remanescentes de uma tribo que, em 1940 reunia mais de 600 índios naquele local. “Foram morrendo aos poucos”, diz com um sorriso sem-graça, como se a culpa por tantas mortes fosse realmente de quem morreu.
(Continua amanhã)