Argentinos já pagam ágio para trocar peso

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado sexta-feira, 7 de dezembro de 2001 as 21:10, por: cdb

A conversibilidade econômica – que durante dez anos estabeleceu a paridade de um para um entre o peso e o dólar – já é uma ilusão. Assim, milhares de portenhos – com fortes suspeitas de uma iminente desvalorização da moeda nacional – estão tomando as ruas do centro de Buenos Aires para tentar desesperadamente trocar seus pesos por dólares. As ruas San Martín, Sarmiento e Reconquista, no coração da “city” financeira, onde estão as principais casas de câmbio da cidade, estavam abarrotadas de pessoas. No entanto, trocar 1 peso por 1 dólar, como foi costumeiro ao longo da última década, foi impossível. As casas de câmbio somente aceitavam dar 1 dólar em troca de 1,30 peso.

O ministro da Economia, Domingo Cavallo, persiste em afirmar que a conversibilidade permanece. Mas, na prática, os argentinos deixaram de confiar no peso e – depois de dez anos de tranqüilidade cambial – voltaram a acreditar somente no dólar. Desta forma, embora o governo não tenha assinado o atestado de óbito, a conversibilidade já morreu para a população. No interior do país, o cadáver da conversibilidade já estava em estado de putrefação. Na cidade de Córdoba, a segunda da Argentina, na hora do almoço as casas de câmbio somente vendiam dólares em troca de 1,40 pesos, câmbio que no fim da tarde se aproximou de 1,50. A corrida em busca da moeda americana disparou desde segunda-feira, o primeiro dia do semicongelamento dos depósitos bancários, anunciado no fim de semana passado pelo ministro Cavallo.

No entanto, nesta sexta-feira, os intensos rumores de que na segunda-feira o congelamento dos depósitos será geral e de que seria complementado com uma desvalorização da moeda, seguida da uma eventual dolarização, assustaram a população. Os rumores de desvalorização e de confisco geral foram divulgados desde quinta-feira à noite pelos canais de TV e rádio.

Nas ruas do centro portenho, o comportamento das pessoas era como se a desvalorização já fosse oficial. O temor cresceu quando os clientes dos bancos perceberam que dos caixas eletrônicos não saiam o limite máximo de US$ 1.000 prometido por Cavallo na quarta-feira à noite. O pânico se espalhou com o rumor de que alguns bancos particulares de capital argentino – entre os quais alguns dos maiores do país – estariam a ponto de anunciar suas falências.

O temor que percorria a espinha de cada argentino endividado é que uma desvalorização colocaria em colapso sua capacidade de pagar a maior parte de seus débitos, que estão tradicionalmente em dólares. Ao redor de 85% das dívidas da população, como aluguéis, créditos e hipotecas, estão em dólares. As notícias pessimistas sobre as reuniões de Cavallo em Washington com o Fundo Monetário Internacional (FMI) aceleraram o processo de desconfiança e a certeza de que “o fim” estava próximo.

Enquanto nas ruas o pânico se espalhava, os principais assessores do presidente Fernando de la Rúa se atarefavam para conseguir um consenso político amplo, que permitisse salvar o país do colapso. Todos os esforços se concentravam em obter apoio para a aprovação do Orçamento Nacional do ano 2002, que implicaria em um ajuste de proporções históricas para a Argentina, com um corte de US$ 10 bilhões em relação ao deste ano.

A Casa Rosada, a sede do governo, transformou-se no quartel-general das operações. Ali, desde cedo, o chefe do gabinete de ministros, Chrystian Colombo, reuniu-se com Carlos Ruckauf, governador da província de Buenos Aires, a principal província do país. Tanto Ruckauf como os governadores Carlos Reutemann, da província de Santa Fé, como José Manuel de la Sota, da província de Córdoba, mostraram-se irredutíveis e afirmaram que somente apoiariam o governo quando a União pagasse as dívidas que possui com as províncias.

Angel Rozas, presidente da UCR, o partido do presidente De la Rúa, afirmou que era “iminente” um acordo entre o governo e o partido Justicialista (Peronista), da oposição. O peronismo possui ampla maioria no Senado e é o principal partido