Argentina estuda opções após renúncia de ministro da Economia

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Publicado quarta-feira, 24 de abril de 2002 as 17:30, por: cdb

O presidente da Argentina, Eduardo Duhalde, ainda não decidiu quem será o novo ministro da Economia, depois da renúncia de Jorge Remes Lenicov, na terça-feira, declarou o porta-voz Eduardo Amadeo. Na noite de terça-feira, Duhalde manteve uma reunião de emergência com os governadores das províncias e os líderes do Congresso que, no início do ano, o haviam levado à presidência.

O objetivo da reunião era obter apoio para um projeto que converte os depósitos a prazos fixos em bônus, a fim de impedir um novo colapso do sistema financeiro. A falta de apoio ao plano levou Remes Lenicov a renunciar, aprofundando ainda mais a crise no país. Amadeo desmentiu ainda as notícias que citam o secretário da Energia, Alieto Guadagni, e o ex-presidente do Banco Central Javier González Fraga entre os prováveis candidatos ao cargo.

Duhalde e sua equipe econômica haviam apresentado o projeto de troca de depósitos bancários por bônus pouco depois da decretação de um feriado bancário, na sexta-feira passada, diante dos graves problemas de liquidez no sistema financeiro. Na reunião de terça-feira com os governadores do Partido Justicialista (peronista), Duhalde criticou a falta de apoio ao plano de seus próprios correligionários. Os governadores peronistas são considerados o sustentáculo do presidente, que foi eleito pelo Congresso ao cargo mediante um acordo político.

Possível reforma ministerial
O suposto veto dos governadores ao nome de Guadagni para substituir Remes Lenicov levou a especulações de que a saída do ministro da Economia geraria uma reestruturação do gabinete e de sua política econômica. Entre as opções que Duhalde estaria analisando para substituir o polêmico plano de troca de depósitos por bônus está uma proposta apresentada na noite de terça-feira por um grupo de senadores governistas. Esse plano visa a frear a fuga de capitais dos bancos mediante o bloqueio de liminares da Justiça, que estão permitindo a liberação de dinheiro bloqueado nos bancos, apesar da vigência de um “corralito” – congelamento de depósitos.

Outro dos grandes problemas enfrentados por Duhalde e seu governo é a pressão inflacionária gerada pela livre flutuação do peso – a moeda nacional perdeu mais de 70% de seu valor frente ao dólar desde janeiro. A renúncia de Remes Lenicov não acalmou os argentinos, que haviam voltado a se manifestar nas ruas, desta vez contra o plano dos bônus. Os correntistas temem que seus depósitos a prazos fixos sejam convertidos de forma compulsório em bônus ou devolvidos em parcelas.

Críticas ao FMI
Em meio aos novos desdobramentos na crise, o governo, segundo o secretário-geral da presidência, Aníbal Fernández, buscará “revisar a estratégia” de sua relação com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Após a renúncia de Remes Lenicov, o secretário-geral disse que a estratégia de Duhalde vinha sendo a de “aproximar a Argentina do FMI para que o país não ficasse à margem do contexto internacional”.

“O presidente quis resolver tudo da melhor maneira, tentando fazer um acordo (com o FMI), mas vê que as coisas estão muito complicadas, e que não há muita esperança de mudanças, porque a política internacional dos Estados Unidos mudou”, afirmou Fernández. “A Argentina vê-se prejudicada e, por isso, algumas decisões devem ser tomadas”, acrescentou.

Na segunda-feira passada, Remes Lenicov retornou de Washington sem conseguir convencer o FMI a liberar seus empréstimos de nove bilhões de dólares à Argentina. O fracasso dessa missão e a negativa do Senado em debater o projeto de troca de depósitos por bônus acabaram precipitando a renúncia do ministro, após menos de quatro meses de gestão.