Argentina e Brasil se juntam para combater política comercial dos EUA

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Publicado terça-feira, 21 de outubro de 2003 as 13:59, por: cdb

Uma declaração assinada em Buenos Aires, na semana passada, entre os presidentes da Argentina e do Brasil poderia ter esquecido de citar os detalhes econômicos, mas enviou uma clara mensagem: os países sul-americanos resistirão aos esforços dos EUA para subestimar sua unidade nas negociações comerciais regionais e mundiais.   

A mensagem conjunta provavelmente não vai passar despercebida em Washington, particularmente entre os negociadores na Organização Mundial do Comércio (OMC), em Genebra, que tentam salvar o que podem das ruínas do recente encontro da OMC em Cancún, no México.

Além disso, os EUA esperam que um encontro, no próximo mês, em Miami irá aproximar o hemisfério ocidental de um acordo sobre a Área de Livre Comércio das Américas, que vai do Alasca até a Antártica, e que deve ser estabelecido até janeiro de 2005.

Usando uma linguagem cada vez mais inflexível, os diplomatas dos EUA culparam o Brasil pelo colapso das negociações em Cancún, dizendo que o país foi muito teimoso em defender as exigências dos países subdesenvolvidos, que pediam o fim dos subsídios agrícolas nos países desenvolvidos.

Após o encontro de Cancún, o representante comercial dos EUA, Robert B. Zoellick, chamou o Brasil de o líder dos países que “não fazem”, e alertou que os EUA poderiam optar por acordos bilaterais com países que “fazem”.

Desde então, o Grupo dos 22 países subdesenvolvidos, que incluíam Brasil China, Índia e África do Sul, reduziu para 12. Os desertores, que incluem Colômbia, Costa Rica, Equador, Guatemala e Peru, aparentemente cederam à pressão dos EUA.

Mesmo lobistas pró-negócios e autoridades do governo da Argentina e do Brasil hesitaram, sugerindo que seus negociadores deveriam adotar uma posição mais conciliatória em Miami.

Em vez disso, os dois presidentes, Nestor Kirchner da Argentina e Luiz Inácio Lula da Silva do Brasil, assinaram uma declaração conjunta, chamada de Consenso de Buenos Aires, como uma resposta ao Consenso de Washington – uma mistura política da economia de livre mercado e a austeridade fiscal defendida na década de 90 como o melhor caminho para o crescimento dos países subdesenvolvidos.

Mais forte na ideologia que na política, a declaração prometeu uma ação para gerar empregos, não apenas lucros, e lutar por um comércio justo, não apenas livre. No segundo ponto, a declaração foi clara.

A Argentina e o Brasil estão determinados a manter uma aliança para os países subdesenvolvidos, e continuar a pressionar por um comércio mais justo para os fazendeiros destes países.

Ao assinar a declaração, os assessores de Lula evitaram criticar os EUA, dizendo que o presidente só está fazendo o que Bush sempre fez – defender os interesses nacionais de seu país.

“Um país de 176 milhões de pessoas não pode ficar isolado”, disse Marco Aurélio Garcia, assessor de política estrangeira de Lula, “e se um país tem uma sólida aliança com a Argentina, África do Sul e Índia, menos ainda”.

Ele descreveu os esforços americanos para prejudicar a aliança de países subdesenvolvidos como “chantagem política”, mas insistiu que, “Conosco, isso não funciona”.

Em Kirchner – que já adotou uma postura combativa contra os grandes negócios, em particular os bancos e fábricas, credores estrangeiros e o Fundo Monetário Internacional (FMI) desde que assumiu o cargo em maio – Lula encontrou um forte aliado.

Apesar das dificuldades, como uma recente disputa pelo fracasso brasileiro em apoiar fortemente a Argentina em suas negociações com o FMI, analistas dizem que as relações entre os dois países nunca estiveram melhores.

Não apenas os dois têm governos de tendências esquerdistas, mas os dois são possíveis superpotências agrícolas – juntos eles produziram mais grãos este ano que os EUA – e têm um crescente número de interesses comuns.

Eles também são menos dependentes dos EUA e da União Européia que nos últim