Após 45 anos, herdeiro da família real iraquiana volta a Bagdá

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Publicado terça-feira, 10 de junho de 2003 as 17:55, por: cdb

O homem que quer liderar uma nova monarquia no Iraque, Sharif Ali Bin Hussein, encontrou reverência e ceticismo em seu retorno a Bagdá depois de 45 anos no exílio.

Membros da família real fugiram do país levando o então bebê Sharif com eles quando o último monarca, rei Faisal, foi morto em um golpe em 1958.

Desde então, ele viveu no exílio, mas não desistiu da ambição de restaurar a família real.

Sharif chegou em um vôo fretado de Londres, onde trabalha como banqueiro.

Tribos

Centenas de líderes tribais e monarquistas receberam Sharif Ali no aeroporto de Bagdá.

Na seqüência, ele foi levado diretamente para o mausoléu onde estão depositados os restos mortais de dois dos antigos reis do Iraque, Faisal I e Ghazi.

– Depois de tantos anos fora do Iraque, eu voltei ao meu país. Com a permissão do povo do Iraque, nós vamos reconstruir esse país. Os iraquianos têm sido muito pacientes todos esses anos. Vocês sofreram com esse ditador. Agora, ele se foi – disse ele a seus apoiadores.

Sharif disse que não se via como detentor de uma posição política, referindo-se a si mesmo como um advogado.

– Nós não pensamos em termos de poder, mas em termos de fortalecimento do povo iraquiano – afirmou ele.

Apoiadores de Sharif dizem que ele busca um referendo que daria aos iraquianos a chance de elegê-lo líder de uma monarquia constitucional.

Mas o candidato a rei não fez menção a esses planos em discurso no mausoléu.

Ele afirmou querer um Iraque construído com “dignidade, liberdade e democracia”.

Sharif também se referiu às dificuldades econômicas pelas quais passam os cidadãos do país – a parte que trouxe a maior parte dos aplausos.

– É uma vergonha que em um país rico como o Iraque as pessoas não recebam seus salários.

Concorrência

Sharif Ali é descendente da mesma família real que governa a Jordânia.

O braço iraquiano da família, sob Faisal I, foi instalado pela Grã-Bretanha depois da Primeira Guerra Mundial. A família governou o país até o golpe de Estado que derrubou a monarquia.

Sharif Ali tenta se projetar como uma figura simbólica que poderia acalmar o caos político do país, mas analistas dizem que sua família nunca teve grande apoio.

Além de tudo, Sharif Ali não é o único remanescente da família real.

Dois de seus primos – membros da família real jordaniana – foram mencionados como possíveis concorrentes ao trono.

Em Bagdá, o movimento de Sharif trabalhou bastante para preparar a chegada dele.

Cartazes decorando a sede do movimento o proclamam como “a esperança do Iraque”.

Mas as opiniões sobre o homem que poderia ser rei variam bastante.

“Ele representa algo que nós precisamos”, diz Dawood Rahmani, um engenheiro aposentado que trabalha para o movimento.

– Com todos os problemas no Iraque agora, talvez algum ditador vai encontrar uma maneira de tomar o poder. Ninguém, a não ser o rei, poderia evitar isso.

Mas muitos no país não conseguem se lembrar de Sharif Ali ou do resto da família real.

“O rei ficou no passado”, diz Salman Fadhil, dono de uma pequena mercearia perto da sede do movimento monarquista.

– Nós precisamos de um Congresso e de um presidente. Não precisamos de mais realeza – disse ele.