Aos 88 anos, morre o sertanista Orlando Villas-Boas

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Publicado quinta-feira, 12 de dezembro de 2002 as 18:01, por: cdb

Morreu na tarde desta quinta-feira em São Paulo, em decorrência de falëncia múltipla de órgãos, o sertanista e indigenista Orlando Villas-Boas, aos 88 anos.

Villas-Boas estava internado no Hospital Albert Einstein desde 14 de novembro, com problemas de saúde que tiveram início com um processo agudo de infecção intestinal”, segundo informações do último boletim médico.

Orlando, junto com os irmãos – Cláudio e Leonardo, falecidos em 1998 e 1961, respectivamente – foram os responsáveis pela implantação do Parque Nacional do Xingu.

A primeira expedição realizada na região do alto Rio Xingu ocorreu em 1884, chefiada pelo alemão Karl von den Steinen.

Só na década de 1940, no governo do presidente Getúlio Vargas, a região começou a ser sistematicamente visitada e explorada.

Foi então organizada a Expedição Roncador-Xingu, que percorreu regiões inexploradas do Brasil central com o objetivo de desbravá-las, abrindo estradas e construindo campos de pouso de emergência.

Como conseqüência da Segunda Guerra Mundial, nacionalistas temiam que houvesse um deslocamento de colonos europeus para o interior do Brasil e a ação da Expedição visava à defesa da região.

Os irmãos dedicaram-se ao contato amistoso e à proteção dos índios que viviam nas cabeceiras do Rio Xingu.

Em 1969, Olrando casou-se com uma enfermeira da reserva, Marina. O casal teve dois filhos: Orlando Villas-Boas Filho e Noel.

Paulistas, oriundos de uma família de classe média, tinham um irmão mais novo, Álvaro, que, embora não os tenha acompanhado ao Xingu, foi funcionário do órgão indigenista oficial, chegando a ser presidente da Funai, na década de 1980.

Em 1944, a Expedição Roncador-Xingu contatou o povo Xavante. Dois anos depois, estabeleceu contatos pacíficos com cerca de 14 povos do alto Xingu, de grande diversidade cultural, lingüisticamente representantes das Famílias Tupi, Aruak, Karib e Jê.

Mantendo contato com Rondon e com outros indigenistas, os irmãos Villas-Boas decidiram permanecer no Xingu e desenvolver um programa positivo de proteção aos índios, buscando assegurar-lhes uma base territorial onde pudessem manter seus modos tradicionais de organização social e de subsistência econômica, além de fornecer-lhes assistência médica contra doenças exógenas.

Os irmãos, idealizadores também da Fundação Nacional do Índio (Funai), defendiam a criação de reservas e parques indígenas fechados, que funcionassem como uma espécie de tampão protetor e seguro entre índios e sociedade brasileira.

Em 1952, a questão foi levada a debate junto à Presidência da República e foi elaborado um documento legal solicitando a criação do Parque Nacional Indígena do Xingu, ocupando grande extensão de terras da parte setentrional do estado de Mato Grosso.

Depois de sofrer sérias ameaças, incluindo uma tentativa do governo do estado de Mato Grosso de fornecer concessões de terras do Parque a companhias e especuladores imobiliários, bem como uma epidemia de sarampo que quase dizimou toda a população da área, o Parque foi criado oficialmente em 19 de abril de 1961, estabelecendo suas fronteiras legais.

Uma frase marcou a vida de Orlando Villas-Boas: “Nada melhor para defender o índio do que o próprio índio”.