Antropólogo diz que ataque suicida não é questão de genética

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Publicado domingo, 9 de março de 2003 as 08:55, por: cdb

A defesa de uma causa por meio de um ato extremo, como um ataque suicida, não é algo inerente ao ser humano, segundo o antropólogo norte-americano Scott Atran. Ninguém nasce com uma tendência para matar ou morrer por um objetivo, mas são manipuladas por treinadores que sabem ativar instintos e emoções básicos.

Membro do Instituto Jean Nicod, de Paris, e da Universidade de Michigan em Ann Arbor, o antropólogo disse que os Estados Unidos se equivocavam em sua guerra contra o terrorismo e com suas ameaças ao Iraque.

Segundo Atran, grupos como a rede terrorista Al Qaeda usam técnicas sofisticadas para criar camicases como os 19 homens que mataram cerca de três mil pessoas nos atentados de 11 de setembro de 2001 em Nova York e Washington.

Em artigo publicado na revista Science, Atran disse que os suicidas não estão “enlouquecidos” quando agem, mas são, sim, doutrinados.

“Creio que estes grupos conseguem manipular emoções inatas… da mesma forma que a indústria do fast-food e a da pornografia manipulam desejos inatos”, disse Atran em entrevista por telefone.
“Esta manipulação cria um compromisso sincero, igual ao que sente uma mãe quando se sacrifica por seu filho”, acrescentou.

Atran, que viveu em Jerusalém e fez sua própria pesquisa, além de analisar as de outros, percebeu que muitos dos atacantes suicidas são relativamente ricos e bem educados. Ou seja, não se pode dizer que ajam por desespero. Ao contrário, são manipulados por líderes que sabem como tocar e despertar instintos semelhantes à necessidade de comer e se reproduzir.

“Eles o fazem com muita eficácia”, observou.

“Minha opinião é de que as pessoas se equivocaram completamente na forma de abordar isso”, disse. “Muitas vezes pensam que estas pessoas estão loucas. Mas elas não têm tendências suicidas, nem famílias pobres”.

“Não há indícios de pobreza”, destacou. “Ao contrário, parecem estar melhor do que as pessoas a seu redor. O presidente Bush tem dito que a forma de combater o terrorismo é melhorar a educação e lutar contra o analfabetismo, mas isso é em vão”.

Também é impossível “vender” os valores dos norte-americanos a estes grupos, sustentou Atran, que considerou sem sentido a idéia de criar uma Rádio Arábia Livre, nos moldes da bem-sucedida Rádio Europa Livre, dos tempos da Guerra Fria.

“Se as pessoas já estão convencidas de uma postura ideológica que é antagônica à sua, bombardeá-las com informações relacionadas à sua só faria aumentar seu antagonismo”, acrescentou. Nos anos 1960, o Leste Europeu era muito diferente dos países árabes de hoje em dia, explicou.

Para Atran, a melhor estratégia seria isolar os extremistas. “Penso que os Estados Unidos e seus aliados deveriam tratar de dar poder aos moderados dentro de cada comunidade”, sugeriu.

Chegar a uma solução para o conflito entre árabes e israelenses também serviria para melhorar a situação, segundo o antropólogo.