Annan questiona nova resolução sobre o Iraque

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Publicado quinta-feira, 2 de outubro de 2003 as 16:10, por: cdb

O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, questionou nesta quinta-feira se a nova proposta norte-americana de resolução a respeito do Iraque ia longe o suficiente para entregar o poder aos iraquianos. Os Estados Unidos modificaram o esboço para uma resolução no Conselho de Segurança que enfatiza o passo a passo da transferência de poder, mas não dá prazo para a desocupação. “Estamos estudando-o. Teremos de determinar se é uma mudança radical ou o quê”, disse Annan. “Obviamente, não vai na direção que recomendei, mas ainda tenho de estudá-lo mais”.

Desde o atentado à sede da ONU no Iraque, em 19 de agosto, Annan vem dizendo ao Conselho que quer uma nova abordagem “radical” que torne o Iraque mais seguro, permitindo a volta da equipe da ONU. Dos mais de 600 funcionários estrangeiros da entidade no Iraque, só cerca de 30 permanecem lá. A nova proposta dos EUA dá mais poderes à ONU, mas não um papel independente na transição. O principal objetivo de Washington é transformar a sua operação militar em uma força multinacional da ONU, sob comando norte-americano.

A França quer a restituição imediata, ainda que simbólica, da soberania iraquiana, enquanto a Rússia defende que a ONU formule um cronograma. “Achamos que a esta altura devemos dar à ONU a liderança do processo político, para trabalhar com todos os iraquianos, para desenvolver um cronograma que seja claro e leve à completa restauração da soberania, e esse processo pode ter o apoio de uma força multinacional”, afirmou o embaixador russo na ONU, Sergei Lavrov.

Governo provisório

Annan defendeu a criação de um governo provisório iraquiano dentro de três a cinco meses. “O que queremos é um governo provisório soberano o mais rápido possível, para que possamos trabalhar no Iraque como fazemos com outros países, em vez de nos pedirem que sejamos parte de uma ocupação militar”, disse um funcionário da ONU, exigindo anonimato.

O governo Bush quer que a nova resolução seja adotada antes da conferência de 23 e 24 de outubro em Madri, da qual participam países que podem fazer doações para a reconstrução do Iraque, avaliada em mais de US$ 35 bilhões. Nenhum país do Conselho de Segurança ameaçou até agora vetar a resolução dos EUA. A França afirmou que pode abster-se.

Pela proposta, o Conselho de Governo do Iraque, composto por 25 membros, vai criar um cronograma e um projeto para redigir a nova Constituição e convocar eleições, em cooperação com as autoridades ocupantes e com a ONU. A ONU ajudaria, se solicitada pelos iraquianos, no processo eleitoral e na criação de instituições.

Para contornar as objeções, o texto fala que a ocupação é uma “medida temporária”, a durar até que “um governo internacionalmente reconhecido e representativo seja estabelecido”. O texto prevê que a administração do país será “progressivamente assumida pelas estruturas em evolução da administração interina iraquiana”. “O dia em que os iraquianos governarão a si mesmos deve chegar rapidamente”, afirma o preâmbulo da proposta.