Água, o futuro e dois tipos de esperança

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Publicado sexta-feira, 23 de março de 2012 as 12:10, por: cdb

Dia 22 de março foi o “Dia Mundial daÁgua”, criado pela ONU para que o mundo tome consciência e faça algo paraevitar um grande desastre que poderá cair sobre a humanidade com a escassez deágua potável no mundo.

Todos, ou quase todos, já viram ou ouviramfalar do que pode acontecer se continuarmos desperdiçando um bem tão vital comoágua potável. Mas, parece que apenas um número relativamente pequeno estálevando esse problema a sério. Por que será isso?

Muitos dos que estão engajados na campanhapela preservação de recursos naturais escassos, como água, parecem pressuporque as pessoas não se “conscientizaram” só porque ainda não conhecemsuficientemente o problema. Assim, a contramedida seria falar mais,”conscientizar” mais. É claro que há muitos que ainda não conhecem esseproblema, mas eu suspeito que haja outros fatores que levam pessoas que jáconhecem, já tomaram consciência do problema da água, a viverem como se nada degrave fosse acontecer no futuro.

Deixe-me dar um exemplo do cotidiano paraexplicar melhor o que quero dizer. Quando algum conhecido nosso enfrenta umproblema grave de saúde, nós costumamos encorajá-lo dizendo que “tudo vai ficarbem”. E isso é importante porque sem esperança a pessoa não encontra força paralutar contra a enfermidade ou para enfrentar os efeitos colaterais dotratamento. Essa expressão “tudo vai ficar bem” revela uma confiança de que háum ser superior dirigindo as nossas vidas. E, se ao final, a pessoa morre,dizemos aos seus entes queridos que ela foi para um lugar melhor. Isto é, “tudovai ficar bem”, mesmo após a morte.

Esse tipo de “esperança” aparece também emalgumas visões sobre a história da humanidade e do universo/criação. Há grupos– alguns ligados a eco-espiritualidade – que dizem que há um Deus bom eprovidencial guiando todo o universo. Todo o universo estaria prenhe doEspírito divino. E por isso a história da humanidade e de todo o universocaminha para um ponto de plenitude, e o bem vencerá o mal. É uma visão ampliadado “tudo vai ficar bem”.

Se “tudo vai acabar bem”, por quedeveríamos levar a sério a ameaça de um futuro sombrio para humanidade porconta do desperdício da água potável? Quem compartilha dessa esperança “sabe”que Deus dará um jeito para resolver o problema no futuro. A esperança pordetrás do “tudo vai acabar bem” é um tipo de esperança que pode conduzir a umacatástrofe. É um tipo de esperança que H. Hannoun chamou de “esperançaexpectante”, que apenas espera.

Há, especialmente entre cristãos maisfundamentalistas, um outro tipo de esperança que leva as pessoas a não fazernada diante do desafio. É a esperança “apocalíptica” fundamentalista de que omundo só terá jeito após a volta de Jesus, e essa volta será precedida porgrandes catástrofes. Neste sentido, a crise da água potável seria um sinalpositivo, pois apressaria a volta de Jesus.

As pessoas e os povos só atuarão de verdadee efetivamente se levarem a sério a ameaça que enfrentamos. E para levar asério esse desafio, devemos abandonar as concepções “teológicas” de históriasdirigidas ou guiadas por deuses, Espírito ou por algum tipo de “lei dahistória”. Precisamos assumir, intelectual e existencialmente, que o futuroestá aberto diante de nós. Mas, não nos engajamos nas lutas difíceis só porquedescobrimos problemas graves. É preciso de uma força espiritual que nasce daesperança! Esperança essa que não seja somente “expectante”, mas que leva a umaação. Uma esperança que nasce de uma fé de que o mundo e o futuro podem sermelhores; uma esperança que nos convoca para ação.

[Autor, com Hugo Assmann, do livro “Deus emnós: o reinado que acontece no amor solidário aos pobres”, Paulus. Twitter:@jungmosung].