Agonia de 41 anos. E é apenas um dos casos

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Publicado quarta-feira, 28 de novembro de 2012 as 12:34, por: cdb

“Que fique claro que este é apenas um dos casos”. Feita no momento em que recebia documentos sobre a prisão de seu pai, o ex-deputado Rubens Paiva, 41 anos atrás em dependências das Forças Armadas, esta declaração da jornalista Maria Beatriz Paiva Keller, sintetiza a agonia ante o desaparecimento do pai, uma história inacabada, e que como ela mesma definiu, assemelha-se a um “filme que não tem fim”.

Ela tinha apenas 10 anos quando o pai foi levado de sua residência pelos agentes da repressão que se diziam da Aeronáutica. Os documentos atestam que Rubens Paiva esteve preso no DOI-CODI-Rio e pode ter sido assassinado ali sob tortura. Testemunhas o viram ali pela última vez desfigurado.

“Isso mexe muito com a gente, comigo e com meus quatro irmãos. Esperamos que seja um passo em direção à instauração de inquérito para julgar os culpados pelas mortes”, afirmou Maria Beatriz ao receber os documentos. Oficialmente autoridades brasileiras já admitiram haver 183 desaparecidos políticos vítimas da ditadura, mas há suspeitas de que esse número seja maior.

Documentos estavam em arquivo de coronel do Exército assassinado

Os documentos entregues a Maria Beatriz e as comissões da verdade gaúcha e nacional estavam no acervo do ex-chefe do DOI-CODI-Rio, coronel do Exército Júlio Miguel Molina Dias, assassinado no dia 1º pp. em Porto Alegre.

O coronel os mantinha em casa, onde foram encontrados pela polícia gaúcha quando das diligências relativas à investigação do assassinato do coronel. Neles há informações de que Paiva foi levado no próprio carro até a sede do DOI-CODI-Rio. Os papéis confirmam sua entrada na prisão, o veículo de sua propriedade e os pertences pessoais que ele portava ao chegar ao local.

“Reconheço o cartão de crédito, a caneta, o caderno de anotações e os certificados de piloto e engenheiro”, destacou Maria Beatriz. “É a materialização de um passado, de mais um episódio interminável para muitas famílias. É mais um capítulo para a história. A família ainda não sabe onde ele foi enterrado e eu temo pela verdade”, completou a filha de Rubens Paiva, 41 anos após o desaparecimento de seu pai.