Agência inglesa anuncia moratória argentina e há corrida aos bancos

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Publicado terça-feira, 4 de dezembro de 2001 as 21:59, por: cdb

Duas das principais agências de classificação de risco para o investidor rebaixaram as notas da Argentina. A inglesa Fitch colocou a dívida argentina no nível de “default” (moratória). A americana Standard&Poor’s reduziu a nota dos bancos instalados no país, depois que eles adotaram as medidas impostas, no fim de semana, pelo ministro da economia, Domingo Cavallo – que limitou os saques em dinheiro.

Já a também americana Moody’s ratificou a nota dos bônus da dívida argentina no nível “Caa3”, o terceiro pior escalão utilizado no organograma de classificação da empresa.

A Moody’s também deu cartão vermelho para os bancos. “Eles falharam no ato de devolução dos depósitos, conforme havia sido combinado com seus clientes”, justificou a consultoria, referindo-se à restrição de saque semanal de US$ 250 para cada um dos seus depositantes.

Arrecadação

Estas avaliações provam que a economia argentina continua na corda bamba e que ninguém aposta que esteja próxima a saída para a mais longa recessão da história do país.

Tanto é assim que a arrecadação de impostos de novembro registrou a maior queda do ano, 11,6%, em relação ao mesmo mês do ano passado.

Argentinos lotaram os bancos para sacar dinheiro na segunda
Foi a sexta caída consecutiva na arrecadação. Em 2001, a arrecadação só marcou alta – assim mesmo em torno de 1% – em três meses do ano.

Este é o quarto ano de recessão do país. A receita de impostos vem encolhendo desde junho, mas a situação piorou a partir de setembro quando a redução chegou a 10,2%.

FMI

Para complicar o quadro de incertezas sobre o futuro do país, a missão do FMI (Fundo Monetário Internacional), que passou uma semana revisando as contas argentinas, retornou ontem à noite para Washington, nos Estados Unidos.

Os integrantes da missão não deram sinais de que a parcela de dezembro, no valor de US$ 1,26 bilhão, será liberada.

Sem estes recursos, teme-se que o anúncio da moratória da dívida de US$ 132 bilhões possa estar mais próximo.

Foi também por isso, e por condenar a troca de papéis da dívida com rendimentos de até 25% por outros de 7%, que as classificadoras de risco reduziram as notas do país.

Mercado

Ontem, no primeiro dia de vigência do nono pacote do governo De la Rúa, que completa dois anos no dia dez, o mercado financeiro reagiu com alívio.

O índice Merval, da Bolsa de Buenos Aires, fechou em alta de mais de 6% e a chamada taxa de risco país em baixa.

Esta taxa é a diferença entre os juros pagos pelos títulos locais e similares emitidos pelo Tesouro americano e aqui já é tão popular quanto nos tempos da inflação.

Nesta manhã de terça-feira, este indicador continua em baixa. Para os analistas, esse é um sinal de que continuam fazendo efeito os elogios do número dois do Tesouro americano, John Taylor, à reestruturação da dívida argentina.

Para o analista político Rosendo Fraga, a medida de Cavallo “amputou” uma parte “doente” da economia argentina – quer dizer, a sangria de depósitos.

“Mas isto ainda não significa que o doente está salvo da morte”, avaliou. O economista Hernan Fardi, da consultora Maxinver, acha que a partir de agora tudo vai depender do comportamento do governo.

“Se o governo continuar gerando dúvidas entre os consumidores e os investidores, dificilmente a Argentina vai sair deste sufoco. Mas se, de agora em diante, ele resolver ser mais enérgico e claro, as coisas ainda poderão melhorar”.