Afegãos “estão comendo grama” para sobreviver

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Publicado quarta-feira, 9 de janeiro de 2002 as 00:00, por: cdb

Representantes de agências humanitárias anunciaram que dezenas de milhares de afegãos estão passando fome no país e tendo que se alimentar de grama para sobreviver. A situação teria sido provocada por anos de guerra civil, seca e pelo regime do Talebã no país. Na região motanhosa de Abdullah Gan, no norte do Afeganistão, a situação seria desesperadora. Era nessa região onde, durante o regime do Talebã, ficava a fronteira entre a região administrada pelo Talebã e a área sob controle da Aliança do Norte, a milícia de oposição. “Essa é a realidade, há uma crise humanitária de verdade em andamento no Afeganistão”, disse Ken Burslem, um porta-voz da Organização Não-Governamental Comitê de Resgate Internacional.

Segundo ele, a organização e o Programa Mundial das Nações Unidas para a Alimentação – a FAO – estão distribuindo alimentos para 10 mil pessoas que passam fome no distrito de Bandghis, perto da cidade de Herat, no oeste do país. Em Bonavash, o vilarejo de mais fácil acesso na região de Abdullah Gan, os únicos alimentos disponíveis são um pão feito de grama e cevada ou mingau de grama. Segundo as agências de notícias, praticamente todas as pessoas no vilarejo sofrem de diarréia ou de tosse persistente. “Nós estamos esperando para morrer. Se a comida não vier, nós vamos comer isto até morrer”, disse Ghalam Raza, um homem de 42 anos que sofre com a tosse, dor no estômago e sangramentos internos.

Os moradores de Bonavash dizem que estão em uma situação melhor do que aqueles que vivem em aldeias mais distantes nas montanhas. Lá, as pessoas não teriam cevada para misturar com a grama. Segundo Ken Burslem, do Comitê Internacional de Resgate, há dificuldade em levar ajuda aos vilarejos no interior das montanhas por causa do mau tempo. A organização teve que pedir um helicóptero emprestado à Aliança do Norte.

Se o pedido for atendido, eles devem lançar na região 2 mil metros cúbicos de alimentos, incluindo carne, feijão, óleo de cozinha e biscoitos. A dificuldade logísitica na distribuição está fazendo com que mil toneladas de farinha, doadas pela FAO, permaneçam estocadas em Zari, cidade que, com o uso de burros, fica a quatro horas e meia de viagem de Bonavash.

Segundo a porta-voz da FAO em Genebra, Christiane Berthiaume, a farinha ainda não foi distribuída por causa de “um problema de comunicação”. “Nós levamos o alimento para a região, mas não havíamos percebido que o problema era distribuí-lo”. Mas esse não seria o único problema, segundo a porta-voz. “Também há ladrões. Não é um lugar muito fácil para se trabalhar”.