AAA 1 de Setembro de 2011 – 11h16 Carapinha: “agressões da Otan prosseguem na destroçada Líbia”

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Publicado quinta-feira, 1 de setembro de 2011 as 09:35, por: cdb

Sobre a infausta guerra na Líbia muito já foi escrito e dito. Dos canais da comunicação social dominante continuam a jorrar rios de falsidade e desinformação, com muito folclore e tiros para o ar (quando não à queima-roupa) à mistura. Sobressai atrozmente, neste novíssimo jornalismo corporativo embedded com o imperialismo, a irracional desvontade assumida ou consentida (ao que os tempos obrigam…) em ler e compreender a realidade.

Por Luiz Carapinha
Importa pois recuperar os traços e caráter essencial desta guerra.

Uma guerra de inspiração colonial, como aliás o lembra o símbolo da bandeira do rei Ídris hasteada pelos bandos armados socorridos e utilizados pela Otan, desde o início apontada contra a soberania, a independência e integridade territorial da Líbia.

Uma guerra de espoliação dos preciosos recursos e riquezas nacionais e de destruição das infra-estruturas líbias. Trate agora o sempre solícito Ban Ki-moon, fingindo ignorar os crimes da Otan e a execução do direito internacional, a que não é mesmo poupada a famigerada resolução 1973 do Conselho de Segurança da ONU, de lançar ventos ao negócio da “reconstrução”. Empreendimento bem consentâneo com a exigência da “comunidade internacional” em enviar uma missão fardada para o terreno (sob comando da Otan? da UE?), a juntar aos conselheiros militares e tropas especiais de diversos países da Otan e “aliados árabes” que desde há meses atuam em território líbio.

Uma guerra a inaugurar o novo conceito estratégico aprovado pela Otan em 2010, que não deixou de marcar um ponto de inflexão no desenrolar das “revoltas árabes”, expondo os perigos mortais das debilidades e fragilidades organizativas e das teses que insistem na salvaguarda do “espontaneísmo” num processo verdadeiramente emancipador. Suprema hipocrisia que atesta ao mesmo tempo da sua capacidade operacional, o imperialismo surge a cavalgar a rebelião árabe, envergando a máscara de paladino da causa humanitária e da democracia (tal como na guerra de desmembramento da Jugoslávia de 1999, então desatada à revelia das Nações Unidas). Manobra que soube tirar partido no plano interno da f(r)atura da gradual readmissão da Líbia no “convívio do grande capital” ao longo da última década, explorando simultaneamente no plano regional as ilusões e divisões reveladas no seio das forças que objetivamente têm desempenhando um papel destacado na combate à agenda hegemônica das potências imperialistas e seus aliados.

Uma guerra que remete para estratégia de largo prazo dos EUA para África (onde há anos procura um hospedeiro para o AFRICOM) e para a lenta mas inexorável tectônica da profunda redivisão e rearrumação de forças em curso no plano mundial. São sintomáticas as palavras de um responsável da companhia pirata petrolífera sediada em Benghazi ao referir que [no redesenhar do negócio do petróleo] “não temos problemas com as companhias europeias (…) mas há algumas questões políticas com a Rússia, China e Brasil” (Público, 23.08.11).

Uma guerra que acontece no pano de fundo do agravamento da grande crise do capitalismo que atinge duramente os EUA, UE e Japão (onde a dívida ultrapassa os 200 por cento do PIB e acaba de ser nomeado o sexto primeiro-ministro dos últimos cinco anos). Não por acaso a revista Time de 22 de Agosto titula em grandes parangonas, “O declínio e a queda da Europa (e talvez do Ocidente)”.

Não é de admirar que nos EUA haja quem clame que a guerra na Líbia possa servir de modelo para outras operações congêneres (ver NYT.com, 28.08.11). Talvez na Síria (com denúncias que os EUA treinam gangs no Iraque para intervir neste país) ou na Argélia. A ação da Otan abriu novos corredores ao islamismo radical e à nebulosa da Al-Qaeda na região do Norte de África.

Na Líbia destroçada e dividida prossegue a agressão da Otan, que só nesta segunda-feira efetuou mais de 40 raids de combate (Ria Novosti, 30.08.11). A resistência patriótica líbia é uma realidade e esperança no longo calvário em que foi afundado aquele país.

*Luiz Carapinha é iIntelectual português, analista de política internacional. Publicado originalmente no Avante!