A rainha encontra o ex-comandante do IRA

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Publicado terça-feira, 26 de junho de 2012 as 18:40, por: cdb

A rainha encontra o ex-comandante do IRA O encontro entre a rainha Elizabeth e o vice-primeiro ministro da Irlanda do Norte e ex-comandante militar do IRA, Martin Mc Guinnes, simbolizará como nunca o longo caminho percorrido desde o acordo de paz de 1998. Não só os republicanos sempre consideraram a monarquia como o símbolo mais acabado da “dominação britânica”, como Mc Guinses fazia parte do comando maior do exército republicano quando o primo da rainha, Lord Louis Mountbatten, morreu em um atentado a bomba em 1979. O artigo é de Marcelo Justo.

Marcelo Justo, direto de Londres

Londres – O vice-primeiro ministro da Irlanda do Norte, número dois do Sinn Fein e ex-comandante militar do Exército Republicano Irlandês (IRA), Martin Mc Guinnes, estenderá a mão para a rainha Elizabeth II durante um encontro nesta quarta-feira (27), em Belfast. O encontro simbolizará como nunca o longo caminho percorrido desde o acordo de paz de 1998. Não só os republicanos sempre consideraram a monarquia como o símbolo mais acabado da “dominação britânica”, como Mc Guinses fazia parte do comando maior do exército republicano quando o primo da rainha, Lord Louis Mountbatten, morreu em um atentado a bomba em 1979.

O histórico encontro será a portas fechadas e sem imagens que possam ferir a sensibilidade pública. A organização de caridade Cooperation Ireland organiza o evento para celebrar a cultura e a arte na ilha, sem distinção do norte, que faz parte do Reino Unido, e da República da Irlanda, que travou uma sangrenta guerra de libertação no início do século passado. O presidente da República, Michael Higgings, assistirá ao evento, mas isso não chega a ser uma grande surpresa: faz tempo que a República convive com essa complexa realidade histórica que é a Irlanda do Norte.

A decisão de Mc Guinnes é o prato forte. O hoje vice-primeiro ministro contou com o respaldo público do presidente do Sinn Fein, Gerry Adams, que admitiu que será um acontecimento indigesto para muitos republicanos. “Isso causará dificuldades para alguns republicanos e nacionalistas, especialmente para aqueles que sofreram nas mãos dos britânicos”, disse Adams. Os ex-camaradas de Adams e Mc Guinnes, congregados no Republica Sinn Fein (partido dissidente do Sinn Fein), que rechaça o acordo de paz, assinalaram que o encontro é uma nova traição. “Em nível simbólico é a pá de cal que assenta a presença britânica.
Mas é um reflexo da realidade que vivemos. Martin Mc Guinnes é um funcionário da coroa britânica. Por que não se reuniria com a chefe de Estado da Grã-Bretanha”, assinalou o presidente de Republica Sinn Fein, Des Dalton.

A posição do República Sinn Fein soou mais isolada do que nunca. Desde os legalistas da Ulster Defence Association – um ex-grupo paramilitar responsável por numerosos assassinatos de católicos – até políticos britânicos das mais variadas colorações, o consenso foi quase unânime. O conservador Lord Norman Tebbit, cuja esposa ficou paralítica por causa da bomba do IRA em Brighton, em 1985, disse a BBC que esperava que o encontro com a rainha fosse mais um passo para “o arrependimento público, o pedido de perdão e os modos de reparar a violência exercida pelo Sinn Fein e pelo IRA na Irlanda e na Grã-Bretanha”.

A visita de dois dias da rainha Elizabeth II a Irlanda do Norte, que começou nesta terça, faz parte de uma normalização da vida cotidiana na província: seria algo impossível antes de 1998. Desde o final dos anos 60 a maioria protestante e a minoria católica, os pró-britânicos e os nacionalistas e republicanos, pareciam separados por um abismo que a presença militar britânica só fazia acentuar. Nestas três décadas, morreram mais de 3.500 pessoas e a Irlanda do Norte parecia um labirinto sem saída similar ao de palestinos e israelenses. Nem tudo está solucionado.

Entre 2004 e 2010, morreram umas 16 pessoas em função do conflito e houve numerosos enfrentamentos de rua. As marchas de verão dos unionistas, que celebram uma vitória militar no final do século 17, são o momento mais tenso e a fenda mais clara de uma história que segue projetando sua sombra sobre a província. O encontro entre Mc Guinnes e a rainha, uma tentativa de neutralizar esses fantasmas do passado.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer