A presença e o lugar das espiritualidades no FSM

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Publicado sexta-feira, 28 de janeiro de 2005 as 12:41, por: cdb

O tema da cultura da paz esteve presente com grande força na marcha de abertura do Fórum Social Mundial, com os tambores que anunciavam a esperança de um mundo novo. Foi uma festa da democracia, da indignação, da luta e da esperança. Os protestos estavam estampados nas faixas, nas vestimentas, no ritmo do olhar. Uma revolta que estava calada no peito e agora ganhava expressão nas vozes roucas, nos refrões e cantos de jovens, crianças e adultos. Mas a marcha expressava igualmente uma expansividade lúdica, sobretudo dos jovens, marcada pelo toque de alegria, de humanidade, e que recuperava o sonho fundamental de esperança num outro mundo possível. Um destaque particular para as mulheres e sua dinâmica de organização.

Nas faixas e bandeiras de todos os tamanhos e cores, a presença de um tema comum: a dos direitos humanos, a preservação da terra, a defesa dos excluídos da globalização, dos sem casa, dos palestinos e afegãos e a indignação contra a guerra. Uma das faixas expressava com vigor a esperança que é de todos: “Não se chegará jamais à paz com um mundo dividido entre a abundância e a miséria”.

Diversas tradições religiosas estiveram também presentes, em pontos diversificados da marcha, espalhando a fragrância de um sonho numa sociedade distinta, de afirmação da vida, de solidariedade, hospitalidade, compaixão e paz. Algumas presenças religiosas ensolaradas enriqueciam a caminhada, como a monja Coen, que com sua simpatia contaminava a todos de alegria por onde passava, suscitando a admiração, o carinho fraterno e a sintonia de coração.

Mesmo havendo um espaço temático específico para os relatos, experiências e reflexões em torno do eixo da espiritualidade, o que se verifica neste Fórum é a irradiação desta questão pelos outros espaços, o que dificulta a apreensão de todas as riquezas que estão sendo partilhadas. O que se pode fazer é simplesmente relatar alguns sinais que estão sendo gestados. No segundo dia de atividades do espaço temático k, pode-se sublinhar a riqueza de algumas oficinas que envolveram experiências relacionadas ao budismo brasileiro.

Numa delas estiveram presentes o mestre zen japonês Daigyo Moriyama Roshi (responsável pelo Via Zen de Porto Alegre), a monja Coen (primaz fundadora da comunidade zen budista em São Paulo), o lama Padma Samten (criador do Centro de Estudos Budistas Bodisatva de Porto Alegre) e o professor Petrussio. Nas discussões apontava-se o desafio apresentado pelo budismo ao novo mundo possível. Havia uma coincidência de opinião entre os debatedores: diante de um mundo marcado pela crise de sustentabilidade, torna-se imprescindível a mudança de referencial e a mudança das práticas sociais.

Na visão do Lama Samten, em entrevista concedida, a paisagem econômica é importante, mas estreita, devendo ser ampliada por uma visão mais humana. Ela não pode ser a utopia, mas uma visão particular que deve ganhar continuidade numa dimensão mais elevada onde se trabalha o coração e vive-se o desafio de uma mudança pessoal. É deste celeiro que nascem as relações positivas com os outros e os gestos de solidariedade, compaixão e inclusão. Em direção semelhante foi a reflexão de monja Coen, que enfatizou a importância de uma dinâmica vital pontuada pela meditação.

É ela a fonte incansável de sabedoria, que torna homens e mulheres mais amorosos e ternos. Enfatizou com serenidade que a meditação é a porta de entrada para a compreensão da mente humana e o caminho para o trabalho interior em favor da afirmação de um sujeito capaz de se dedicar ao empenho em favor da paz. Este trabalho no âmbito da interioridade não significa isenção de compromisso com as causas sociais, mas é a fonte segura para um compromisso sustentado interiormente: “Para resolver os problemas do mundo, eu tento estar num espaço onde eu possa vê-los com clareza, e para vê-los com clareza precisamos de pausas para as preces, que a oração e a meditação nos proporciona”.

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