A marcha pela água e os chamados golpistas

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Publicado segunda-feira, 26 de março de 2012 as 11:23, por: cdb

Desdeo dia 08 de março, uma caminhada de indígenas e militantes sociais de váriastendências esteve percorrendo o Equador desde a cidade de Zamora até a capital,Quito. Foram 14 dias de caminhada, passando pelas cidades, conversando com apopulação. A pauta principal era a defesa da água, ameaçada pelas mineradoras,mas à marcha acabaram se somando outras consignas como a dos trabalhadorespúblicos em luta contra o desemprego e a da população indignada com os altosimpostos, entre outras.

Aolongo da caminhada foi se formando também um caldo de demonização da marcha. Oalvo principal acabou sendo a comunidade indígena, principal impulsionadora daluta pela água, que tem vivido na pele a destruição dos rios que são sagradospara ela. O primeiro a criar o clima de animosidade foi o próprio presidenteRafael Correa que tão logo soube da caminhada declarou que não deixaria a”esquerda infantil, com plumas e com ponchos” desestabilizar seu governo.Depois, com o andar do protesto, passou a atacar os caminhantes qualificando-oscomo golpistas, aliados da direita. A confusão de conceitos –ora eram esquerdainfantil, ora eram direita– conseguiu mobilizar os partidário do governo e elestambém organizaram atos visando desmontar a apoteose da chegada da marcha nodia 22.

Efoi o que se viu em Quito. No Dia Mundial da Água, quando os caminhantesentraram na cidade, já os esperavam também grandes manifestações pró-Correa,inclusive em frente ao palácio governamental.

Ora,a marcha promovida pelos indígenas não era uma marcha contra o presidente ouvisando dar qualquer golpe contra o governo constitucionalmente eleito. Era umamanifestação, como tantas vezes foram feitas, de luta pelas demandas dos povosoriginários e dos trabalhadores. Tudo o que queriam era uma conversa quecolocasse para andar o acordo firmado com o próprio Correa em outubro de 2010,quando outra marcha lograra fazer com que o presidente aceitasse estabelecer umcronograma de ações em defesa da água.

Ocorreque dos 19 pontos acordados quase nada saiu do papel. Pelo contrário. Conformedenuncia o prefeito de Zamora, Salvador Quispe, várias empresas mineradorascomeçaram a atuar em áreas de segurança nacional, o que é proibido pelaConstituição. Também outras empresas se estabeleceram em áreas indígenas sem arealização de uma consulta às comunidades, outro flagrante desrespeito àConstituição. Então, ou a Constituição é para ser cumprida ou não. Não dá paracumprir alguns artigos e outros não. Esse era o ponto sobre o qual oscaminhantes queiram abrir conversação. Não foi sem razão que a marcha terminouem frente à Assembleia Nacional, onde os manifestantes exigiram o cumprimentoda carta magna.

É fatoque alguns setores ligados à direita equatoriana se juntaram à marcha de formaoportunista, como é comum nesses casos. Mas, isso não pode significar que osque lutam pela água e pelo cumprimento da lei sejam golpistas. Há que separar ojoio do trigo. O fato de haver grupos, como os indígenas, que não concordam comtudo o que faz Correa não significa que sejam desestabilizadores do regime.Pelo contrário. O que querem é que as propostas construídas na Constituintepopular sejam respeitadas.

Mas,o que se viu em Quito foi a indução ao demonismo. Como se fazer oposição, porsi só, fosse uma ação golpista. Aqui no Brasil vivemos isso na pele quando opresidente Lula, então um ícone popular, levou adiante a reforma da previdênciaque retirava direitos dos trabalhadores. Parte da esquerda, em apoio total aogoverno, acusava de fazer o “jogo da direita” aqueles que “ousavam” se levantarem críticas e protestos contra a lei saída de dentro do executivo e que tantoprejuízo trouxe aos trabalhadores.

Nocaso do Equador, a questão das lutas indígenas é algo que precisa de muitacompreensão. As comunidades originárias estão submetidas à outra lógica,completamente fora dos padrões de direita e esquerda da cultura ocidental.Mirá-las com essas lentes fatalmente leva ao erro. O núcleo ético/mítico dasculturas autóctones tem a água como ponto nodal. É nas nascentes dos rios quenascem os deuses, é no leito deles que muito moram, então, destruir a água édestruir as comunidades como cultura e vida. Não compreender isso é perder abatalha da constituição de um estado plurinacional.

Muitasvezes na história do Equador comunidades indígenas estiveram do lado depolíticos de direita, porque esses, de certa forma, acabavam fazendo-os crerque os respeitavam. Coisa que Correa não tem sabido fazer. Com sua maneiraarrogante de tratar as demandas indígenas o presidente inclusive vai empurrandoas comunidades para a direção dos aproveitadores – esses, sim, interessados emdesestabilizar o governo. Desqualificar os manifestantes chamando-os ora degolpistas ora de esquerda infantil não ajuda em nada no processo. E o fatoconcreto é que a mineração avança no Equador, e avança ferindo a lei, com oaval do governo. Isso é real, não é história da direita.

Nodia 22, vários representantes do governo estiveram na televisão, que transmitiaa cada minuto detalhes da marcha e das manifestações pró-Correa. E todos eles,sem exceção, em vez de discutir o tema em questão, que era a defesa da água,preferiram desqualificar os líderes da marcha. O prefeito de Zamora era o maiscitado. Segundo alguns dos entrevistados, Salvador Quispe era um hipócrita,falando contra as mineradoras quando ele mesmo já havia trabalhado em minas. Umcompleto disparate, porque nenhum dos indígenas que lutam pela água é contra amineração. O que eles querem é que a atividade não venha destruir o ambiente,que as empresas não se instalem de forma ilegal. Ou seja, querem participar simdo processo e dos lucros que a atividade venha a oferecer. A pergunta é? Porque é indecente os indígenas quererem ganhar com a mineração? Por que só asempresas estrangeiras podem ganhar? O território é indígena e se dali sair oouro, a prata ou qualquer outro mineral os indígenas tem todo o direito dereceber o que lhes é devido. E certamente seriam melhores mineradores porqueconhecem seu ambiente e respeitam sua cultura. Então, esse é um falso debate.

Amarcha pela água realizada por indígenas e outros setores da sociedade foi umacaminhada de alerta para que a lei de águas incorpore as demandas discutidaspelas comunidades. Foi uma cobrança do acordo firmado que segue sem resposta.Foi uma demonstração de que existem setores ainda capazes de realizar a críticaem defesa do sonho construído na Constituinte popular. Ao presidente Correa seriarecomendável um pouco mais de respeito para com aqueles que sabidamente não seenquadram na dicotomia direita/esquerda. Conquistar os setores indígenas é bompara Correa, mas tem de ser feito com o cumprimento das promessas e não combravatas.

Já avelha direita golpista e reacionária, essa é facilmente identificável e é bemfácil reconhecê-la mesmo quando se infiltra nos movimentos populares, fazendo–essa, sim– a luta contra Correa. Aos indígenas pouco se lhes dá quem está napresidência. Eles querem fazer avançar obem-viver, a proposta de vida digna e boa para todos. Aos olhos da esquerdatradicional isso pode parecer uma heresia, mas não é. Antes da condenação épreciso que os intelectuais e militantes de esquerda tentem entender de verdadea cosmovisão dos povos autóctones. Com certeza aprenderiam muito e poderiamavançar com mais aliados na busca pelo socialismo.