A magia e a força de uma literatura

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Publicado sexta-feira, 30 de novembro de 2012 as 16:22, por: cdb

Joel Rufino dos Santos viaja pela história e pela literatura brasileira com romance fantástico, apresentando os dilemas dos negros na vida do país.

Por Marcos Aurélio Ruy (*)

Com personagens marcantes e uma narrativa fantástica, o autor conta a história de parte da literatura brasileira ao criar um diálogo entre as visões de dois grandes escritores negros brasileiros, Lima Barreto e Cruz e Souza, no seu novo romance Claros sussurros de celestes ventos.

Ele revive duas das personagens mais marcantes da literatura brasileira: Olga de Triste fim de Policarpo Quaresma (Lima Barreto) e Núbia, de Broqueis (Cruz e Souza) e no diálogo delas mostra as agruras dos negros em fins do século 19 e início do século 20, no período da abolição da escravatura e a marginalização dos ex-escravos na nascente República até 1930, quando ocorre a revolução contra as oligarquias dominantes liderada por Getúlio Vargas.   O autor deslumbra fatos históricos e mistura ficção e realidade na qual a história soa como a protagonista da narrativa, como um diálogo num hospício – Lima Barreto esteve internado algumas vezes – entre dois internos, um dos quais se diz o “Almirante Negro” (menção à Revolta da Chibata, na qual marinheiros negros se revoltaram contra os maus-tratos que sofriam na marinha) e o outro Afonso (nome de batismo de Lima Barreto). Um trecho diz: “apita o trem em cada estação, passa direto, lá vai Afonso, despedido, agora sim, de todas as ilusões. Era uma vez a História da escravidão negra e sua influência na nacionalidade”.

Rufino viaja pelo tempo e mostra acontecimentos intercalados e marcantes, e como esses movimentos foram usados pelos negros que acreditavam poder melhorar de situação participando de uma luta que não era sua como o Movimento Constitucionalista de 1932, liderado pelos barões do café paulistas, mas com adesão popular intensa em São Paulo. E no qual os negros participaram em busca de vida melhor. Viaja também pelo Movimento Modernista de 1922, no qual também os negros ficaram à deriva. Porque os modernistas (que incluíam de esquerdistas aos direitistas do integralismo), apesar de tencionarem uma brasilidade, apresentavam uma visão exclusivista e rejeitavam como modernas os autores que não rezavam por sua cartilha. E parte de seus integrantes se afinou com a proposta de identidade nacional do governo de Getúlio Vargas e do Estado Novo, nas décadas de 1930 e 40.

Até diálogos entre Cruz e Souza e Lima Barreto, autores que os modernistas deixaram na sombra, o texto apresenta mesmo autores negros para ilustrar o desenvolvimento das ideias racistas no Brasil. Mostra a marginalização de negros e índios na tentativa de “civilizar” o país ao modo europeu, numa clara tentativa de branqueamento apoiada por estudos acadêmicos distantes da vertente popular de nossa cultura, relegando as influências africanas e indígenas ao mesmo tempo, em que se usava o samba como elemento para criar a identidade nacional. Num trecho ele diz: “não podendo me ver como escravo, se recusavam a me ver como homem”.

Claros sussurros de celestes ventos é um desses romances para permanecer na história da literatura brasileira pela força de personagens marcantes que daqui a 500 anos ainda estarão sendo comentados. A força do romance de Joel Rufino está na magia de seus personagens onde sobrepõe o tempo histórico para reafirmar a história da vida no tempo real. Neste livro, o fantástico narra a vida, a ficção mostra o real, sem subterfúgios.

(*) Colaborador do Vermelho

Livro
Joel Rufino dos Santos. Claros sussurros de celestes ventos. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2012

 

 

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