A lista dos RSF e a democracia brasileira têm leituras diametralmente opostas

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Publicado quarta-feira, 25 de janeiro de 2012 as 18:48, por: cdb
mídia
Os RSF cotaram o Brasil em 99º lugar no ranking mundial de Liberdade de Imprensa

A maior dificuldade da democracia no Brasil são as diferenças. E o respeito a elas. Machão não respeita gay. Gay não respeita carolas. Carolas não respeitam comunistas. Comunistas não respeitam a extrema-direita. A extrema-direita não respeita os Direitos Humanos. Os Direitos Humanos não respeitam o direito à eutanásia. O direito à eutanásia não respeita o papa. O papa não respeita a camisinha. A camisinha não respeita a bíblia. A bíblia não respeita os cientistas. Os cientistas não respeitam as bruxas. Quanto a elas, dizem não existir, “pero que las hay, las hay“.

Nos jornais diários de esquerda, demoniza-se a direita. Nos jornalões, todos de direita, as lutas sociais não passam de boatos, pano de fundo para o noticiário-novela das TVs abertas, ou mais do mesmo com um toque de sofisticação, nos poucos canais de notícias da TV por assinatura. Pior ainda, colocam a serviço do engodo o poderio dos cofres, abarrotados com mais de 80% das verbas publicitárias estatal e comercial. Movida a ressentimento, porque as empresas jornalísticas da direita são podres de ricas, poderosas, derrubam ministros, presidentes da República e batem e arrebentam, a imprensa de esquerda volta a satanizar os adversários com um tratamento opinativo, adjetivado e ineficaz. A máxima de François Marie Arouet: “Não concordo com uma só palavra do que dizeis, mas defenderei até a morte o vosso direito de dizê-lo”, cai por terra no primeiro sopro ao se defrontar com o nível baixíssimo do embate político e social em curso no país.

A equidistância, os valores da urbanidade e, fundamentalmente, o senso de honra das personalidades públicas, jornalistas ou não, são achincalhados por um lado e deturpados por outro. A maioria dos atores na mídia nacional, seja a esquerda e seus adjetivos, ou a direita e seus bilhões, ganha nada além da desconfiança por parte dos leitores. O público, esse sim, as mais de 40 milhões de pessoas que, diariamente, informam-se no dia a dia pela internet, nos sítios dos diários com os quais melhor se identificam – pelas 40 milhões de razões que cada um deles encontra – passam a desacreditar cada vez mais em suas fontes.

Ninguém, em sã consciência, pode tirar a razão de alguém que se aborreça ao perceber a falha de caráter de uma revista como a Veja. Da mesma forma, é difícil encontrar um admirador do colunista e líder na internet Paulo Henrique Amorim, que não concorde sobre o jeito exagerado dele relatar uma história. Mas, da maléfica Veja ao eloquente PH, todos têm o direito de dizer o que bem entenderem de dizer, da forma como melhor lhes aprouver e ponto. Sem censura. Sem ora, pois. Sem precisar de diploma ou reserva de mercado e muito menos da concordância desta ou daquela autoridade para exercer o Jornalismo em sua essência. Dizer o que pensa e assinar embaixo é o direito de cada um dos brasileiros, garantido em cláusula pétrea da Constituição.

Muito bem. Se vivêssemos em um país democrático assim como manda a Carta Magna – que não é o caso, por tudo o que foi exposto quanto às diferenças e o respeito a elas – presumir-se-ia o equilíbrio de oportunidades para os meios de comunicação. Desde a rádio lá de Mirantão do Oeste à TV Globo, do blogueirinho mais sujo e encardido até o UOL, do diário de Conceição do Mato Dentro à Folha de S. Paulo; todos têm a obrigação de sobreviver em segurança para manter o padrão ético exigido aos jornalistas, no respeito às leis do país e com liberdade para conquistar a sua audiência, comemorar o sucesso e ser feliz. É assim na Dinamarca. Esta é a tese, mas a realidade por aqui serão outros 100 enquanto houver prefeito magoado, pistoleiro de aluguel, compra em massa de assinaturas de revistas amigas, doações estatais a TVs manipuladas e empréstimos de pai para filho em bancos públicos ao monopólio da mídia no Brasil.

A organização não governamental Repórteres Sem Fronteiras (RSF), fundada pelo polêmico jornalista francês Robert Ménard, divulgou nesta quarta-feira, como faz todos os anos, a sua lista de países com mais ou menos liberdade de imprensa. O Brasil, nas contas da ONG, está em 99º lugar, vizinho a Israel, Palestina, Mongólia e Guatemala, atrás de Cuba, China e Irã. Bom reparar que este é um ranking no qual, em primeiro lugar, estão empatadas a Finlândia e a Suécia. Para esta instituição, os dois países representam a sociedade democrática perfeita. Ambas as nações recebem nota 10 na série de quesitos que as torna o paraíso para os jornalistas; enquanto a Síria, o Turcomenistão, a Coreia do Norte e a Eritreia somam o inferno e o purgatório das redações, juntos e embolados. Deste ponto de vista, com 179 países na pesquisa, a presença do Brasil em 99º lugar ainda é um elogio.

As publicações de direita no Brasil, como O Globo, Estado de S. Paulo, Veja, Folha de S. Paulo e satélites tocaram alarde ao perceber a queda livre do país de 41 postos no ranking, do 58º para 99º lugar, no espaço de apenas um ano. Fazem a leitura que melhor lhes interessa para o assunto, sem uma linha sequer sobre o alto número de respostas afirmativas com relação à autocensura por parte dos jornalistas, que sentem seus empregos ameaçados caso escrevam algo do qual o patrão não vá gostar. Entre as 44 perguntas do questionário aplicado à pesquisa, o peso da censura e da autocensura é um dos maiores, com minúcias como o sentimento do repórter sobre possíveis pressões sofridas quando na cobertura de matérias sobre a degradação do solo, a violação dos Direitos Humanos, a corrupção policial e política e os desmandos dos poderes estabelecidos. Já os diários de esquerda, estes simplesmente param no questionamento sobre quem financia a pesquisa e a instituição, se a União Europeia e a ONU ou a CIA, a NSA ou outro mecanismo sombrio desses aí, com base nos EUA. O que os resultados estão indicando, diante dos parâmetros estabelecidos – e disponíveis na web para quem quiser saber quais são – fez pouca diferença.

Assim, o Brasil fica cada vez mais distante dos países nórdicos, dos EUA (que já amargam o 47º lugar) e até do Haiti (52º), para se juntar à turma que, além de matar e esfolar jornalistas ainda exerce sobre estes profissionais uma das piores frustrações humanas, que é a autocensura. O coronelismo no Nordeste mata tantos jornalistas quanto a guerra do tráfico no Rio de Janeiro, ou mais, mas a censura imposta a um repórter, redator ou editor por ele mesmo, em uma negativa acovardada quanto aos fatos que presencia, paralisado pelo medo de ser despedido caso cumpra com o seu dever mais básico: o de dizer aos seus leitores a verdade do que vê e ouve, é comparável à morte. Ainda assim, uma morte mais lenta e dolorida, pois morre antes a consciência, e antes da consciência, a capacidade de se indignar.

Quando um repórter que cobriu os desmandos da polícia paulista no Pinheirinho, em São José dos Campos, chega à redação e se limita a relatar o aborrecimento dos motoristas com o engarrafamento causado durante o episódio, se for alguém sério, morre um pouco por dentro. Depois de escrever o que o editor pediu, resignado, chora. Se solteiro e com R$ 10 no bolso, pede demissão daquela porcaria e vem colaborar aqui no Correio do Brasil. As vagas são pouquíssimas e o salário, menor ainda, mas o número de interessados é imenso porque, aqui, não há censura de qualquer espécie. O jornal é moderno, sem amarras financeiras ou políticas, o que infelizmente explica o dinheiro curto no final do mês. Mas não há preço que pague o sono dos justos. De alguma forma, quem faz o CdB sabe que um jornal justo e corajoso assim irá vencer qualquer obstáculo, pois conta – antes de tudo – com o respeito de seus leitores e estes, mais cedo ou mais tarde, tornam-se assinantes e ajudam a manter de pé e cada vez mais forte um petardo deste calibre contra a iniquidade. O que não falta, nas agências de publicidade, é publicitário estupefato com o crescimento do CdB no Alexa.com. Pois apertem os cintos, pois o rally mal começou.

Todos, à boca pequena, conhecem a dificuldade de convencer o anunciante que precisa estar nos meios de comunicação de maior audiência e não pode correr o risco de perder todas as bonificações negociadas com o monopólio, a anunciar aqui no CdB. Em um país que estivesse no 20º lugar da lista dos RSF, tal prática valeria a cadeia para meia-dúzia. Assim, nem tentamos, o que deixa nossa área comercial, o balcão da casa, às moscas na maior parte do ano. Ora, dinheiro é importante, mas não é tudo na vida, razão pela qual o diário segue firme em seu 12º ano de circulação ininterrupta, com a cobertura completa de todos os assuntos que os grandões e endinheirados não podem noticiar: os desmandos no Pinheirinho, a roubalheira na Privataria Tucana, a ação do Anonymous ao redor do mundo, o movimento Ocupar Wall Street, a verdadeira Primavera Árabe, os desmandos dos EUA e da Organização do Tratado Atlântico Norte (Otan) na Líbia, a miséria causada pela crise do capitalismo na Europa, o drama das minorias raciais nos países onde o neonazismo desponta, a exemplo da Alemanha, Suíça e França; o massacre de vidas pela fome no Chifre da África, as agruras dos estudantes no Chile e, agora, as bravatas da Inglaterra sobre as argentinas Ilhas Malvinas. Estes e outros assuntos estão disponíveis em nossas páginas diariamente, de forma séria e equilibrada, para os leitores ávidos por uma fonte capaz de informar, com discernimento, cada um dos fatos que marcam a realidade.

Acreditamos piamente que, ao exercer o Jornalismo de excelência, com base apenas nos fatos e nunca em suposições ditadas por interesses comerciais ou às ordens do capital internacional, o CdB segue na trilha da justiça e da verdade para ajudar o país na transformação necessária a ocupar os primeiros lugares do insuspeito – ou suspeito, como quiserem – ranking dos RSF. Quando o Brasil e a Finlândia estiverem em passos parelhos no quesito Liberdade de Imprensa, nós aqui no CdB não poderemos esconder a ponta de orgulho por acreditar em Voltaire e trabalhar feito mouros por dias melhores. Esperamos apenas que cheguem o mais rápido possível.

Gilberto de Souza é jornalista e editor-chefe do Correio do Brasil.

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