A infinita burrice contra a santa estupidez

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Publicado segunda-feira, 24 de setembro de 2001 as 02:12, por: cdb

É bom que os EUA expliquem ao mundo, o mais rápido possível, o que ele quer fazer exatamente com esta “Justiça Infinita” que se abate sobre a Terra, após os atos de ferocidade contra alvos civis e militares, em 11 de setembro, naquele país. Há muitas dúvidas a serem sanadas na cabeça da humanidade, desde um momento como aquele em que vivíamos, um minuto antes dos aviões explodirem, até agora, depois de destruídos os ícones do capital e das armas, os quais aquela nação tanto se orgulhava.

No segundo anterior aos ataques, o mundo já mergulhava em uma crise sem precedentes, tanto na Europa quanto nos EUA e Canadá. Estes dois blocos – ricos e cientes do domínio que exercem sobre o restante do mundo -, afogavam-se em uma estagnação econômica e uma crise de consumo como não se via há muito tempo, desde os idos da Grande Depressão, ainda nos anos 20. E com eles arrastavam desde o Japão até os emergentes, como o Brasil e a Argentina, ou os paupérrimos africanos e asiáticos.

Explicações para o momento havia milhares. A percepção da catástrofe econômica, no entanto, aguardaria o segundo seguinte para conhecer a catástrofe política. Ambas as percepções, assim, unir-se-iam sob o manto da tragédia, seja em velas acesas ou em shows com o objetivo de angariar fundos para as vítimas do World Trade Center e do Pentágono. E formaram, juntas, tanto a percepção da catástrofe econômica quanto à da tragédia política, a imagem de uma nação – uma superpotência – perdida de ódio e pronta para instituir, como disse o presidente deles, a luta do bem contra o mal.

Mas que bem é esse e a que mal, exatamente, estava se referindo aquele governante patético e emocionado, claro, com o ataque a tudo o que milhões de pessoas, no Oriente Médio, por exemplo, têm como símbolos da prepotência e da arrogância, do império capaz de destruir milhares de vidas para assegurar a razão a este ou aquele aliado, em guerras interminável mundo afora, o mais distante possível das crianças gordinhas e bem-tratadas de Nova Iorque ou de Washington? Ele não pode estar falando sério, a menos que o bem a que o governo Bush se refere seja hipócrita a ponto de não perceber o mal causado a milhões de seres humanos por este mundo afora.

Assim como não é possível que US$ 40 bilhões – o suficiente para acabar com a fome na África por mais de uma década, segundo cálculos da própria ONU que eles gostam tanto, mais os outros milhões arrecadados no maior encontro de celebridades da Hollywood deles para homenagear as vítimas daquela bestialidade -, sejam utilizados para manter o mesmo sentido às causas que levaram quem eles chamam de terroristas, mas que as mães dos terroristas preferem chamar de heróis, a lançar quatro boeings contra os próprios norte-americanos. Parece-me completamente ilógico, irracional mesmo, para dizer o mínimo.

Mais irracional, porém, é passar um cheque em branco, assinado embaixo pelas maiores potências nucleares da Terra, para uma luta absurda e sem precedentes contra a humanidade. Parece o caso do cachorro que declarou guerra ao próprio rabo. Sim, porque não há a bandeira de uma nação a ser derrubada. Não há um país – ou ainda que seja um conjunto de países – a enfrentar. Hoje os EUA lutam contra um sentimento, forjado no ódio e nas matanças que os próprios Estados Unidos da América do Norte e seus aliados patrocinaram ao redor do mundo. É muito perigo, por conseguinte, atribuir rostos a sentimentos. Hoje o sentimento de revanche dos norte-americanos tem a face do Osama bin Laden, mas amanhã pode ter a cara de um negro, ou de um latino-americano, quem sabe os olhos amendoados ou a pele vermelha…

No ponto aonde as coisas chegaram, a hegemonia mundial – ou a pax americana – como alguns teóricos chegaram a anunciar, simplesmente não existe. Por mais dinheiro que eles gastem para acabar com o terrorismo no mundo, não há soma grande o suficiente para derrotar o que eles mesmos construíram ao longo de séculos de degredo, escravidão, guerras e fome, injus