A importância da ilustração

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Publicado quinta-feira, 16 de outubro de 2003 as 15:00, por: cdb

O ilustrador “nada mais é do que um contador de casos que usa imagens no lugar das palavras”. Essa afirmação, enunciada por Odilon Moraes em posfácio da edição ilustrada por ele de “O Homem Que Sabia Javanês”, de Lima Barreto (Cosac & Naify), se torna cada vez mais verdadeira. Uma observação atenta do mercado editorial brasileiro voltado para o público infantil e juvenil revela um crescente interesse não apenas por obras bem ilustradas, mas por trabalhos que constituam uma verdadeira parceria entre o escritor e o artista que cunha o discurso visual associado àquela obra.

O próprio trabalho de Moraes sobre o texto de Barreto é um exemplo claro dessa sintonia fina. Trabalhando com a transparência da aquarela e com tons bastante sóbrios e envelhecidos, o artista fez uma espécie de reconstrução da atmosfera de época. “Sem que eu percebesse, a sépia das fotos antigas entrou na ambientação e embebeu as imagens com um quê de registro histórico”, afirma o artista, que tem em seu currículo mais de 50 livros ilustrados. Outro exemplo que merece ser lembrado é o trabalho desenvolvido por Andrés Sandoval para “Amazonas – No Coração Encantado da Floresta”, de Tiago de Mello (Cosac & Naify). Um impressionante exercício plástico e cromático de construção do clima amazônico, no que ele tem de onírico e sedutor.

A autoria também pode ser compartilhada, construída de maneira muito próxima de um trabalho a quatro mãos. É o que se vê nos quatro títulos da série “Princesa de Chinelos”, da Difusão Cultural do Livro. São adaptações livres de Katia Canton de histórias de princesas. Mas cada uma delas mantém uma relação especial com a artista escolhida para ser a ilustradora – não por acaso só há mulheres. Infelizmente, nessa coleção não houve por parte da editora investimento em programação visual de qualidade, com o design editorial ficando bem aquém do que o projeto mereceria.

“Minhas histórias são pensadas incluindo-se a essência, a alma do trabalho de determinado artista”, concorda Katia. As parcerias são com Beth Moysés (“A Noiva do Rei”); Renata Pedrosa (“O Sonho da Princesa”); Sandra Tucci (“O Príncipe Encantado e o Mico-Leão Dourado”); e Sandra Cinto (“Os Desenhos Mágicos”). Cada um desses trabalhos pode ser visto como uma espécie de curadoria impressa, já que a escolha do ilustrador depende de uma relação entre sua poética e o tema do texto.

Uma outra forma curiosa de abordar a relação fascinante entre texto e imagem é inverter o procedimento tradicional, no qual a imagem sempre acompanha, fica à margem do texto. Mas também é possível – e interessante – que a história seja construída a partir da imagem. É o caso de “Navio das Cores”, o último título da Coleção Arte para Criança, uma bem-sucedida experiência da Berlendis & Vertecchia Editores que, desde 1980, vem colocando lado a lado mestres das letras e artes brasileiras. Dessa vez coube a Moacyr Scliar um texto que “ilustrasse” uma seleção de obras de Lasar Segall. Partindo da questão do judaísmo, comum aos dois autores, da imigração e da descoberta da paisagem e do povo brasileiro pelo artista de origem lituana, mas que conseguiu como poucos cunhar uma imagem visual do País e de sua gente, Scliar mescla ficção e realidade de forma bastante atraente. O mote é sempre dado por Segall. É a imagem que conduz o escritor em sua narrativa, como naquele jogo em que as pessoas devem continuar a frase dita pelo seu antecessor até que a história – coletiva – se complete.

Outro ícone da pintura brasileira ganhou adaptação interessante para o público. O Portinari – cujo centenário de nascimento vem sendo comemorado ao longo deste ano – apresentado pela diva da literatura infantil Ana Maria Machado em “Portinholas” (Editora Mercuryo) nos apresenta com um lirismo e uma poesia contagiantes o mundo lúdico das crianças, como é colocado em interessante diálogo e se funde com desenhos de uma criança de verdade, a filha da escritora, Luisa, quando pequena.