A hora do espanto

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Publicado quarta-feira, 26 de setembro de 2001 as 19:53, por: cdb

Na madrugada de sexta-feira, 21, após o discurso na sessão extraordinária do Congresso americano, o presidente George W. Bush colocou o mundo em pé de guerra. Entre outras de semelhante quilate, anunciou que usaria “todas as armas de guerra para esmagar o terrorismo” e exigiu do Taleban, além de Osama bin Laden, “todos os terroristas”. Bush júnior mais uma vez apelou para o velho maniqueísmo da Guerra Fria: todos os governos do mundo estão com os EUA – ou contra os EUA. Já na manhã de quinta-feira 20, a primeira página do New York Post mostrava os Eagles, caças norte-americanos, voando – não se sabe bem para onde.

Os aplausos, no Congresso, ecoaram país afora. “Em momentos de crise, os americanos são patriotas”, disse a Carta Capital Robert Shapiro, diretor do Departamento de Ciências Políticas da Universidade Colúmbia, em Nova York. Desta vez, acrescentou Shapiro, “esse patriotismo ganhou dimensões ainda maiores”.
Motivo? O ataque terrorista do dia 11, com a morte de mais de 6 mil pessoas, foi o maior na história contemporânea deste país em solo americano. Segundo a pesquisa New York Times/CBS, 75% dos americanos eram, no início da semana, favoráveis a uma intervenção militar, mesmo que isso implicasse na morte de inocentes.

Ainda assim, apesar do mar de bandeiras norte-americanas e dos hinos cantados em uníssono país afora, já surgia o dissenso. Fora e dentro dos Estados Unidos. Em Nova York, na Union Square, cópia verdejante da Estátua da Liberdade, uma mulher coletava dinheiro para a Cruz Vermelha. E dizia: “É através da paz que chegaremos a um acordo”.
Victor, mais conhecido como “o Profeta”, se tornava, na Union Square – e diante de câmeras e microfones -, um dos bastiões na luta contra uma intervenção militar. “Essa – disse Victor, que está concluindo um Ph.D. sobre política no Oriente Médio – não é uma guerra contra o terrorismo, mas, sim, uma luta extrema contra extremistas… A verdade é que o governo americano não entende o mundo árabe: é preciso lidar com as causas do terrorismo com diálogo, não com armas”, anunciava o Profeta.

Note bem. Este é o Profeta da Union Square. Nada além. Enquanto ele usava o verbo, os Estados Unidos deslocavam para o Mediterrâneo Oriental e Oceano Índico 325 aviões, o USS Theodore Roosevelt, maior porta-aviões do mundo, 14 barcos lança-mísseis, submarinos de ataque e unidades de desembarque capazes de transportar até 2 mil homens. Só no porta-aviões seguiram 15 mil soldados.

Na sexta-feira 21, outros 35 mil haviam sido instruídos a escrever seus testamentos. Acrescente-se que os EUA já têm baseados no Oriente Médio, 1 milhão e 365 mil soldados, 41 navios de desembarque, 27 cruzadores, 52 destróieres, 35 fragatas, 55 submarinos nucleares de ataque, 18 deles armados com mísseis.
A rota adotada por Bush não assusta somente os países que poderão eventualmente se tornar alvos do ataque americano. Além do Profeta da Union Square, uma miríade de intelectuais, analistas políticos e professores questionava a própria semântica do presidente americano. Horas após o ataque nos EUA, Michael Clarke, professor especializado em defesa na Universidade de Londres, dizia a CartaCapital: “Bush precisa definir o que entende por ‘guerra’ – e quem é seu inimigo”. Segundo os cálculos de Clarke, haveria cerca de 50 terroristas responsáveis pelos recentes atentados nos EUA e mais umas 50 mil pessoas dando apoio à rede de terroristas. “Será que isso justifica bombardear o Afeganistão ou qualquer outro país?”, indaga Clarke.

Entre os americanos, passados os primeiros instantes de perplexidade e ira, começam a surgir dúvidas em relação a uma “guerra”. Sentado próximo aos escombros do World Trade Center com a filha Lindsay, de 7 anos, Robert Jattan diz a CartaCapital: “Num primeiro momento, eu mesmo queria ir bombardear o Afeganistão, mas depois você reflete e vê que não é por aí. É preciso identificar quem são realmente os assassinos e isso leva tempo”.
Assim como Robert, de 40 e poucos anos,