A história proibida da aliança entre Washington e bin Laden

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Publicado sábado, 15 de setembro de 2001 as 16:49, por: cdb

“Procura-se inimigo para um orçamento de 344 bilhões de dólares”. Há alguns dias, ao comentar as despesas militares inéditas propostas pela Casa Branca ao Congresso dos Estados Unidos – inclusive para o programa de militarização do espaço –, a revista norte-americana Z-Net usou a frase acima para comentar a desproporção entre os gastos e a ausência de ameaças que as justificassem. A julgar pelas notícias das últimas horas, os EUA já encontraram o inimigo. O escolhido é milionário o saudita Osama bin Laden, refugiado há anos no Afeganistão dirigido pelos talebãs.

Jamais será possível combatê-lo, ou evitar novas carnificinas como a de terça-feira, com o novo programa “Guerra nas Estrelas”, mas isso não importa. Humilhada pelos ataques, Washington precisa mostrar ao mundo – e em especial aos mercados financeiros – que não perdeu capacidade de iniciativa nem disposição para levar adiante seus projetos. A mídia oficial evitará que transpareça o desencontro entre os riscos reais representados pelo terror e o que será feito a pretexto de combatê-lo.

Sintomaticamente, os jornais comerciais já começaram a esquecer uma história cuja importância para a própria segurança norte-americana é crucial, a ser verdadeira a hipótese de culpa de Bin Laden. Trata-se da aliança que Washington manteve ao longo de anos com seu atual “inimigo número 1”, e que foi indispensável para dar-lhe tanto a capacidade de articulação de que desfruta hoje quanto a aura de suposto “vingador” de mundo árabe.

No abrigo antimísseis construído com dinheiro americano

Os fatos, quase proibidos na imprensa alinhada ao sistema, estão disponíveis em algumas publicações alternativas norte-americanas, entre as quais destacam-se, além de Z-Net, a revista The Nation (www.thenation.com). Para esta escreve Robert Fisk, um repórter veterano e especializado em questões de Oriente Médio.
Fisk fala com a autoridade de quem se encontrou várias vezes, na condição de jornalista, com Bin Laden. A última delas, conta, foi em 1997, nas montanhas do Afeganistão. Avistou o saudita na pose e nos trajes em que aparece tradicionalmente na imprensa ocidental. Roupas afegãs tradicionais, refestelado em sua caverna, ar tranqüilo. Bin Laden aparentou um conhecimento muito superficial sobre a situação do mundo. Atirou-se sobre o jornal que Fisk trouxera consigo. Deu a entender que lhe trazia muitas novidades, mas o abandonou depois de meia hora.

Preferiu falar sobre sua crença na proteção que lhe era assegurada por Alá. Relatou os muitos episódios em que, ao enfrentar os ocupantes soviéticos do Afeganistão, salvou-se porque os foguetes que foram atirados sobre seus esconderijos deixaram de explodir. Afirmou não temer a morte, porque “como muçulmano, acredito que, quando morremos em combate, vamos para o Paraíso”. Mas não deixou, nem por um instante, o abrigo em que se encontrava. Fisk registra: era “uma relíquia dos dias em que combateu os soviéticos: um nicho de oito metros de altura escavado na rocha, a prova até mesmo de ataques de mísseis”.

Em nome da vitória sobre os soviéticos, aliança com os extremistas

Num outro texto – um artigo analítico assinado por Dilip Hiro e intitulado “O custo da ‘vitória’ afegã” – The Nation revive as circunstâncias da aliança que acabaria envolvendo Washington e Bin Laden. O cenário é o Afeganistão; a época, a última fase da Guerra Fria.

Em 1979, um golpe militar havia legado ao poder grupos ligados à União Soviética (URSS). Anticomunista fervoroso, Zbigniew Brzezinsky, assessor de Segurança Nacional do então presidente Jimmy Carter, vislumbra uma oportunidade de passar da defesa ao ataque. Não quer apenas reinstalar em Kabul um governo fiel ao Ocidente. Pretende disseminar, entre as populações muçulmanas da URSS, um tipo de pensamento religioso capaz de incitá-las ao máximo contra o governo de Moscou.

The Nation frisa: havia alternativas, mesmo para os que, como o assessor de Segurança Nacional, e