A guerra dos cordiais

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Publicado domingo, 6 de novembro de 2005 as 13:02, por: cdb

Nós, os cordiais, sempre levamos para o espaço público nossas afecções, desafecções, até mesmo nossas infecções da vida privada. Isso exige uma certa dose de exagero no comportamento, para legitimá-lo. O carnaval de exageros das CPIs e da crise política não são uma estranha anomalia em nossa história.

Quando eu era guri, ouvia críticas sobre os atores cinematográficos brasileiros, dizendo que eles padeciam de overacting. Ou seja, eram exagerados em cena, fazendo caras e bocas a toda hora. Lembro-me em particular de minha musa Eliana que, a cada emoção, erguia a sobrancelha esquerda e nos deixava estáticos e extáticos: ela (a sobrancelha) na tela e eu (eu mesmo) na platéia.

Revendo aqueles tempos, não acho que esse tipo de atuação fosse destituído de realismo. Assim era a vida brasileira naqueles tempos, em que se procurava imitar o american way of life e o american way of cinema. A forma de ver nossa imitação como algo criativo era dotá-la de exagero. E isso correspondia e corresponde a um profundo estro de nossa cultura social e política, aquela que nos faz ser os campeões da cordialidade definida por Sérgio Buarque.

Nós, os cordiais, sempre levamos para o espaço público nossas afecções, desafecções, até mesmo nossas infecções da vida privada. Isso exige uma certa dose de exagero no comportamento, para legitimá-lo. Não basta termos amores e ódios inconfessáveis de modo explícito, que ditam nossas lealdades políticas, em lugar de ideologias e razões. Para legitimar essa troca de valores, é necessário mostrá-los com exagero, exibi-los, “demonstrar” a sua inevitabilidade em função de preceitos supostamente maiores. Como já disse alhures, o modo mais freqüente de assim agir é “moralizar” tudo o que vemos: nossos aliados de hoje são apresentados como ínclitos defensores da probidade política desde sempre; nossos inimigos de agora, sobretudo se foram aliados ontem, são definidos como vis traidores provavelmente desde o berço. Aos primeiros, aplicamos os parâmetros do mais desbragado idealismo para descrevê-los; aos segundos o implacável rigor de nosso pensamento analítico e crítico, para não dizer cítrico.

Assim pois, cara leitora, caro leitor, não pense assistir estranha anomalia ao ver o carnaval de exageros que estas CPIs e esta crise política foram, sobretudo na televisão, desde sempre. O nauseabundo moralismo que dali emana, de longa raiz e tradição udenistas, é o motor dessa cordialidade de araque que governa o espetáculo do overacting destinado a embalar a visão dos reacionários e conservadores tanto na Casa Grande como no condomínio da classe média; igualmente entre os desassistidos da Senzala que, como o escravo de Hegel, prefiram sobreviver à míngua e a migalhas do que arriscar-se nas aventuras da liberdade – ainda que tal submissão possa ser mais compreensível do que a acomodação apalermada ou esperta nos outros ambientes.

Pois veja, sensível leitor ou leitora: José Dirceu certamente não será cassado pelos erros políticos que tenha cometido, nem por quaisquer provas existentes contra malfeitos penais que, de resto, inexistem (as referidas provas). Também não será cassado, se o for, por quebra de um decoro que a casa congressual, como um coletivo, entregue ao espetáculo digno de circo romano há meses, não tem primado por manter. Se for cassado, e na bolsa de apostas diz-se que ele será a 10 por um, ele o será pelos ódios que sua “figura” desperta.

Coloquei “figura” assim, entre aspas, por não se tratar dele mesmo, o Zé; mas sim da máscara política que lhe atribuem, e que por certo ele mesmo ajudou a construir, a máscara do overacting: José Dirceu, o durão, o capitão do time, o implacável, o isto ou aquilo. Este “José Dirceu” desperta o ódio da direita pelo seu passado militante, e o temor da mesma direita por aspirar a ser um eventual sucessor de Lula (assim se espalha o boato por aí). Despertou o ódio à esquerda por aparecer como o condestável de um processo de expurgo no part