A Europa e o mundo

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Publicado quarta-feira, 22 de outubro de 2003 as 19:48, por: cdb

Escrevo esta crônica no final da marcha pela paz que trouxe cem mil pessoas de muitos países, na grande maioria jovens italianos, de Perugia à cidade de Assis, a cidade da paz. Com esta marcha concluiu-se a 5ª Assembléia das Nações Unidas dos Povos, uma assembléia que se realiza desde 1995 por iniciativa da Tavola della Pace (Mesa da Paz), uma vasta coligação de 500 organizações não governamentais e movimentos sociais e de 350 municípios italianos que lutam pela paz e pelos direitos humanos dos povos. A idéia da criação da Tavola della Pace merece ser referida, uma vez que tem hoje uma grande atualidade. Surgiu da necessidade, sentida por ativistas dos direitos humanos italianos, de refletir sobre a reforma das Nações Unidas e de preparar propostas concretas nesse sentido a apresentar por ocasião das celebrações dos cinquenta anos da ONU. O secretário-geral da ONU era, nessa altura, Boutros Boutros-Ghali, um diplomata apostado, ele próprio, na reforma das Nações Unidas, tendo produzido dois documentos importantes nesse sentido (Agenda para a Paz e Agenda para a Democratização). Em parte por isso, os Estados Unidos da América retiraram a confiança ao secretário-geral e impediram que o seu mandato fosse renovado, ao contrário do que era habitual. Procuraram um outro secretário-geral que servisse os seus interesses, Kofi Annan.

Perdido o ímpeto da reforma da ONU, a partir da ONU, a Tavola della Pace tomou a seu cargo alimentar essa aspiração, realizando desde então a Assembléia das Nações Unidas dos Povos. Para além de uma vastíssima presença de organizações italianas, a Assembléia inclui representantes de movimentos pela paz e pela democracia dos quatro cantos do mundo e outros convidados internacionais. Este ano estavam presentes 210 convidados de 90 países. Tive o gosto de partilhar com o dr. Mário Soares a presença portuguesa.

Cada ano a Assembléia tem um tema central. O deste ano foi o papel e a responsabilidade da Europa no mundo. O tema não podia ser mais oportuno. Depois do desnorte da Europa no que respeita à invasão do Iraque, depois dos milhões de europeus que em 15 de fevereiro vieram para a rua manifestar-se pela paz em comunhão com muitos outros milhões em todo o mundo, depois da vergonhosa posição adoptada pela Europa na recente reunião da Organização Mundial do Comércio em Cancun, depois de os neoconservadores norte-americanos revelarem os seus planos para dividir a Europa e fazer dos países em vias de entrar na UE um autêntico território de caça, depois de tudo isto era urgente que os cidadãos refletissem sobre a questão crucial das responsabilidades globais da Europa. As conclusões foram perturbadoras. No preciso momento em que a fúria unilateralista e a agressividade ensandecida dos EUA abrem o espaço geopolítico para uma alternativa, a Europa, que estaria em condições em ser parte importante dessa alternativa, está num impasse, desprovida de política externa, paralisada por um processo constitucional antidemocrático, presa fácil dos interesses econômicos norte-americanos com um acesso privilegiado aos comissários relevantes. O que se passou em Cancun foi uma vergonha para a Europa oficial e uma tragédia para as aspirações de solidariedade global dos cidadãos europeus. Os mesmos países europeus que granjearam as simpatias do mundo menos desenvolvido, ao oporem-se à guerra no Iraque, deram as mãos aos EUA, recusando-se a discutir os subsídios à agricultura e a abrir os seus mercados aos produtos dos países asfixiados pelas políticas do FMI ao serviço dos credores europeus. Nem sequer os moveu saber que uma vaca européia consome diariamente mais fundos públicos que o rendimento diário à disposição de cada um dos muitos milhões de habitantes do terço mais pobre da humanidade. Tampouco os moveu saber que, enquanto um refugiado africano “vale” 17 cêntimos de um dólar, um refugiado europeu do Kosovo “vale” quase 2 dólares. Esta hipocrisia impede a UE de emergir como protagonista de u