A esquerda e o Fórum Social Mundial

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Publicado terça-feira, 7 de outubro de 2003 as 22:03, por: cdb

Após três edições consecutivas do Fórum Social Mundial em Porto Alegre, qual o saldo que ficou para a esquerda brasileira, do ponto de vista da elaboração teórica e da formulação de novas políticas que sirvam de alternativa concreta à ofensiva da globalização do capital? Não parece ser um exagero que esse saldo é muito pequeno, principalmente quando olhamos para a esfera da esquerda partidária. Os principais partidos da esquerda brasileira participaram dos três fóruns, mas, uma vez encerrados os mesmos, a agenda por uma outra globalização parece ter caído no esquecimento, espremida entre as urgências políticas do momento e uma visão muitas vezes paroquial de alguns dos temas que constituem a essência mesma do processo Fórum Social Mundial. Tudo se passa como se os encontros tivessem sido absorvidos como uma grande festa da esquerda mundial, um lugar de encontros e reencontros – uma das virtudes, sem dúvida, do FSM -, mas de pouca conseqüência teórica e prática, do ponto de vista da incorporação dos temas do Fórum na atividade política cotidiana.

É importante assinalar que uma das razões que pode ter contribuído para esse quadro é o sentimento de desconfiança de muitos movimentos sociais e organizações não-governamentais em relação à atuação dos partidos políticos. E vice-versa. Essa desconfiança não é nova, refletindo em parte o quadro de crise que marcou a esquerda em geral na virada do século. As grandes derrotas do século XX, fruto da transformação de projetos humanistas generosos em experimentos autoritários e burocráticos, deixaram ferimentos que ainda não cicatrizaram. A estrutura verticalizada e uma certa vocação hegemonista que marcaram – e marcam – a história recente da esquerda plantaram em muitos setores dos movimentos sociais a semente da desconfiança, do temor do “entrismo” e do aparelhamento. Esse quadro tem colaborado para dificultar um diálogo aberto e transparente entre esses setores e também para definir uma agenda mínima de lutas em comum. Deve-se dizer, a bem da verdade, que os movimentos sociais não estão livres desses problemas que apontam nos partidos.

Paradoxalmente (ou não), a vitória do PT nas eleições presidenciais contribuiu para acirrar esse quadro de desconfiança. As exigências da governabilidade, o crescimento do pragmatismo e do realismo político na atividade partidária cotidiana e a aversão à teoria, que como bem assinalou Emir Sader, marca o PT desde sua origem, ampliaram essa distância em vários campos e sentidos. A relação conflituosa entre os movimentos sociais e o governo Lula já era esperada diante da situação de endividamento e de desmantelamento do Estado brasileiro, após décadas de execução de políticas neoliberais, e a existência de demandas sociais urgentes represadas há muitos anos. Mas é justamente tendo em vista esse quadro de limites e contradições que a esquerda brasileira poderia extrair algumas lições do processo que constituiu (e constitui) o Fórum Social Mundial. O desafio de combinar uma ampla diversidade política e social com uma unidade em torno de algumas lutas em comum foi – e continua sendo – uma das tarefas mais ricas do FSM, já tendo apresentado bons resultados.

O reconhecimento do outro

Uma das condições para a boa execução dessa tarefa é uma disposição permanente para o diálogo e para o reconhecimento das diferenças o que, em última instância, significa o reconhecimento do outro. E reconhecer diferenças é algo muito mais forte do que simplesmente aceitá-las. O reconhecimento exige, para além da aceitação, um exercício nada banal de identificar de que lugar parte a fala do outro e qual a história que está por trás dela. Dito de modo mais simples, exige uma genuína capacidade de escutar e não apenas protocolar. Essa exigência está diretamente relacionada a um dos principais temas do FSM, a saber, a da necessidade de radicalizar a democracia como forma de barrar o avanço do capital sobre todos os domínios da vida humana. Os