A crítica da política instrumental

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Publicado terça-feira, 24 de outubro de 2006 as 12:25, por: cdb

A política tem duas dimensões. De um lado, a dimensão calculadora, instrumental, que se centra preferencialmente no “jogo” do poder real. De outro lado, a dimensão propriamente social da política, que se centra na própria produção da realidade social, na qual ocorre o “jogo” do poder. A política calculadora é plenamente legítima, embora circunscrita nos limites dos fins estabelecidos pela política maior, aquela que diz respeito ao estabelecimento da sociedade ela própria, com suas práticas, com seus costumes políticos e com seus critérios de avaliação.

Esta última dimensão da política deve ser o centro das nossas atenções. Ela é, sobretudo, central para os cidadãos escolherem, para julgarem em que termos podem se inserir na sociedade conforme cada uma propostas políticas que se lhes apresentam.

Esta dimensão é essencial à democracia, pois é por via dela que se formam as condições que determinam a vontade politica dos cidadãos. É o que se costuma denominar esfera pública, determinante para os valores e os modos de operação da cultura política. É preciso focar preferencialmente esta dimensão, procurando reforçar a mesma pela prioridade na formação da cidadania; assim a consciência política majoritária da população estaria muito menos a mercê de mobilizações eleitorais propagandísticas. Seria muito mais autônoma em relação a manipulações, sejam de quem forem. É neste sentido que cabe dizer que a autonomia decisória, a capacidade de julgar por si, constitui o verdadeiro referencial ético da cidadania, e, portanto, desenvolver uma política plenamente convergente com a ética é propiciar ao máximo as condições para o exercício desta cidadania.

Pelo dito, não foi o “caso dossiê” que levou ao segundo turno das eleições presidenciais; foi uma desatenção em relação à dimensão da política não centrada preferencialmente em cálculos eleitorais, nas articulações, nos conchavos de cúpula, nos apoios de caciques e em mecanismos de propaganda eleitoral. Em outras palavras: foi a decisão de não comparecer aos debates.

A lição que a situação propicia é que a população está muito mais interessada nas políticas de construção da formação social, da sociedade e da inserção cidadã na mesma, do que na política centrada nos cálculos e nas estratégias de ocupação do poder. Afinal, foram “cálculos de ganhos e de perdas” que induziram a não participação no debate e este deve ter sido o principal motivo de o processo eleitoral ir ao segundo turno.

Os debates constituem, muito mais do que parece à primeira vista, uma oportunidade de avaliação do candidato no que concerne às políticas que pretende implementar e ao modo pelo qual se apresenta à opinião pública. O debate assim, antes de tudo, propicia um exercício para testar o poder autônomo do juízo político. Não ir ao debate no final do primeiro turno sinalizou para muitos uma política centrada mais em cálculos eleitorais e menos em propostas voltadas à construção da sociedade.

Na verdade, a situação do chamado “clima de denuncismo” que tomou conta do país não se deve unicamente a uma imprensa manipuladora ou a tentativas de golpe etc.. Manipulação e golpismo navegam na pouca autonomia decisória e na despolitização. O próprio governo precisa atentar devidamente à realidade política em que se move. Uma relativa despolitização ocorrida na sua relação com a sociedade e uma certa debilitação de sua vinculação à participação popular não possibilitaram a visão clara dos efeitos deletérios sobre si próprio, associados a uma forma social viciada da política, aquela centrada em índices com fins eleitoreiros, conchavos de cúpula, acordos mais ou menos intransparentes e desempenhos simbólicos, a qual constitui a essência da realidade social excludente em que se vive.

Esta contaminou, pela sua proximidade, até mesmo muitos incautos que consideravam poder se servir destes estratagemas instrumentais para fins sublimes, esquecendo que por esta via se igualavam aos que julga