A CPI da noiva búlgara

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Publicado sexta-feira, 27 de junho de 2003 as 16:59, por: cdb

Começou nesta quarta a CPI do Banestado. Que vai mostrar a água podre, o lodo estilizado, das elites do Brasil que apóiam o Fome Zero, choram as pitangas, condoem-se dos esmoleres, e até de lágrimas de crocodilo inundam os seus olhos quando da observância, ao sofá, dos dramas desfilados nas telenovelas – mas, com raras exceções, a maioria destes comovidos tem um pezinho no off broadway de bancos novaiorquinos especializados na ablução monetária.

Em apenas dois anos de amostragem, o Ministério Público Federal e a PF encontraram 152 mil nomes de brazucas responsáveis pela lavagem de US$ 30 bilhões. Quem viu a lista dos lavadores, como este repórter e outros tantos, não pensou outra coisa: nosso Brasil é apenas, em essência, uma sucursal, um plágio transoceânico, do Brasil que não passa fome e até arrota caviar Beluga, com accidie, nas capitais do
Primeiro Mundo.

Estamos na hora dos boquirrotos, enfim. Mas quem serão? Tudo indicaria, avant la lettre e de acordo com a imprensa, que seriam os caciques do PFL e do PSDB (até nome de artista famoso de TV consta da lista).Mas, nos bastidores da CPI e já na terça-feira, o estado de bem-aventurança política brazuca, vulgo toma-lá, dá-cá, começou. Tucanos esgrimem contra o PFL o nome do presidente liberal, senador Jorge Bornhausen. E os liberais, assimilando o golpe, devolvem com listas sobre a lista de lavagem já conhecida judicialmente como “Lista Tucano”.

Acresce que, pelo andar da carruagem, estamos numa singular sinuca de bico. Vejamos a tecnicidade da coisa toda: segundo o magistrado Fernando Moreira Gonçalves, da Associação dos Juízes Federais, mais de 70% dos pedidos de investigação no Exterior, feitos por autoridades brasileiras (as famosas cartas rogatórias) são negados pelos gringos. A confirmação do que tem saído na imprensa depende, portanto, da boa vontade do pessoal do lado de lá. O que certamente não vai acontecer – o PFL já articula suas pecinhas com policiais do FBI republicano.

O procurador Luiz Francisco Fernandes de Souza estima que a CPI, para chegar a termo, deva levar de seis meses a um ano. E já denuncia que há articulações para esvaziá-la tecnicamente. Ou seja: evitar que a papelada gringa, a das confirmações, bata por aqui. Estamos, ao abrir essa CPI, nubentes de uma noiva búlgara: aquela que ninguém sabe como é. Mas uma coisa é certa: mais uma vez, os boquirrotos seremos nós, pagadores de impostos. O que não deixa de ser, aliás, um belíssimo teste para o petismo e para os petistas no poder: como falar em dignidade depois que tudo acabar em churrasco? (e vai acabar).
Teremos, sim, um gran finale tão perversamente previsto em Bouvard e Pecuchet, de Flaubert, ou nas explicações de um Eichmann em Jerusalém: tudo não passou de “problemas de ordem técnica”. O lodo vai freqüentar as manchetes por três semanas. E será, graciosamente, varrido para debaixo dos tapetes áulicos. Bastará que um novo escândalo, plantado em alguma mídia, desvie o foco do populacho: batatinha!

Claudio Julio Tognolli >i>é jornalista.