A corrida dos barbudos – a São Silvestre dos “Lulas”

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Publicado terça-feira, 7 de janeiro de 2003 as 19:31, por: cdb

Os 36 graus que torravam o asfalto da avenida Paulista no último dia de 2002 não foram suficientes para convencer alguns participantes da São Silvestre a arrancar suas barbas postiças. Legítimos representantes do pelotão que, à falta de pés ligeiros, adere a fantasias para romper o anonimato, os barbudos que usaram novelos de lã para imitar Lula deram um forte tom político à tradicional corrida paulistana.

Apesar de brincadeiras e mensagens referentes ao País serem marcas registradas da prova, esta edição teve uma cara diferente – e uníssona. O engenheiro Roberto Menezes, 61 anos de vida e 18 de São Silvestre nas costas, tomou um susto quando chegou:

– Nunca vi tanta gente com fantasia parecida. Votei no Serra, mas se soubesse que ia ser assim poderia ter vindo pelo menos com tênis vermelho!

Poderia, mas provavelmente ninguém notaria. No quesito criatividade, a concorrência foi dura – quase tão dura quanto a esportiva. Se houvesse pódio para fantasia, o lugar mais alto ficaria, muito provavelmente, com o administrador de empresas Renato Sarli. Ostentando um diploma presidencial, grudou uma faixa verde-e-amarela no peito e até um segurança petista arrumou.

– Faz 15 anos que me fantasio para a São Silvestre e sempre chamo a atenção. Mas nunca teve tanta gente querendo tirar foto comigo como desta vez.

Um tom.
Transformado em fantasia de corredor, Lula abraçou as mais diversas causas. Virou diploma, apoiou a paz no Oriente Médio…

Já Adauto Andrade, 39 anos, estava mais preocupado com Brasília do que com a foto. Nascido em Aiuaba (CE), o corredor levou uma placa em que pedia para Lula não se esquecer do Nordeste.

– Nasci, vivi e saí de Aiuaba, que é igual a Caetés. Tem coisas que só quem vem de um lugar assim entende. E o Lula veio. Não é possível que ele não faça coisas boas por nós.
Já a capixaba Aurelina Alves Caselli, de 75 anos, quer dividir responsabilidades e, por isso, correu com o programa do novo governo debaixo do braço.

– Quem votou também tem obrigações e está na hora de as pessoas prestarem mais atenção no programa.
Outro portador de discurso engajado era o paulistano Cláudio Estevão, 51 anos, professor de História que se fantasiou de árabe para falar de palestinos, judeus, paz e, claro, de PT:

– Nada é mais importante do que a paz mundial. Misturei o PT porque acho que estamos vivendo um momento histórico. Há 40 anos não tínhamos um presidente popular.

Na festa esportiva do dia 31, a avenida de tantas manifestações e comemorações viu o nome de Lula ser desmembrado a serviço de todas as idéias. Gênese Silva, 44 anos, técnico em eletrônica e filho de índios, escreveu numa estrela do PT o título “Índio Seropédica”, em referência à cidade em que mora, no Rio:

– Agora as coisas vão melhorar para os índios. O Lula é praticamente um índio porque conhece a seca, o preconceito, as dificuldades da vida. Você está me entendendo?

O raciocínio de Gênese foi cortado por um cangaceiro. Francisco Ricardo Fernandes, 35 anos, promotor de vendas na pequena Iguatu (CE), pediu desculpas por se intrometer na conversa, mas não resistiu à presença da máquina fotográfica e do bloquinho de anotações.
Agitadíssimo, foi logo contando que, para participar da São Silvestre, passou três dias e três noites num ônibus que quebrou cinco vezes nos 2,8 mil quilômetros de estrada que rodou. Roupa do cangaço, sandália nos pés, espingarda e peixeira em punho, se diz maratonista, mas defende que a corrida não pode atrapalhar a fantasia:

– É um pouco mais difícil pra correr assim de sandália do que de tênis, mas não podia estragar a fantasia. Isso aqui é bom mais pela munganga…

Munganga? Ciente de que no Sudeste a palavra soa nova, Francisco emenda a tradução e aposta que o termo vai virar moda.

– Quer dizer bagunça, festa. Amanhã lá em Brasília vai ter munganga também. O Lula ganhou de lapada no Ceará e agora vai ter tanto nordestino mandando que todo mundo vai aprender a saber