“As Forças Armadas se inclinaram a uma posição muito identificada com o processo”

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Publicado segunda-feira, 27 de dezembro de 2010 as 08:05, por: cdb

Para o sociólogo, declaração do comandante-geral do Exército de que a instituição é socialista e anti-imperialista é uma resposta à atenção recebida durante a gestão Evo

 

 

27/12/2010

 

Vinicius Mansur

correspondente em

La Paz (Bolívia)

 

Durante as comemorações do bicentenário do Exército da Bolívia, o comandante-geral da instituição, general Antonio Cueto Calderón, surpreendeu a todos ao qualificá-la como socialista e anti-imperialista. Eduardo Paz Rada, diretor do curso de sociologia da Universidade Mayor de San Andrés (UMSA), a universidade pública de La Paz, analisa, em entrevista ao Brasil de Fato, o comportamento e as mudanças nas Forças Armadas (FA) nestes quase cinco anos de governo Evo Morales.

 

Brasil de Fato – Como você vê a autodefinição do Exército boliviano como socialista, comunitária, anticapitalista e anti-imperialista?

Eduardo Paz Rada – O que está claro é que as Forças Armadas [FA], nos anos de governo Evo Morales, se inclinaram a uma posição muito identificada com o processo, com os movimentos populares. Elas praticamente coadjuvaram plenamente com as ações do governo, sobretudo em suas medidas contra a Usaid [órgão estadunidense de financiamento ao desenvolvimento], a embaixada dos EUA e a presença da DEA [Agência Antidrogas dos EUA, por sua sigla em inglês). Isso foi um marco histórico importante e de acompanhamento ao processo social. Entretanto, em relação à declaração específica, creio que é excessiva, excede o que a própria Constituição sinaliza. A nova Constituição não dá um salto tão vertiginoso e o socialismo não é um discurso, é toda uma construção que tem outros ingredientes. A declaração parece buscar a consolidação do atual Alto Comando Militar, até porque também há uma renovação nos quadros militares de tipo geracional. Muitas autoridades não se atreveriam a dizer que se vive um processo socialista, ainda que haja elementos que podem permitir impulsionar processos desse tipo.

 

O que explica a lealdade das FA ao atual processo político?

Evo Morales deu a atenção que antes não se havia dado às FA. Durante todo o período neoliberal, elas foram mal-tratadas econômica e institucionalmente. Evo as reposicionou e aumentou consideravelmente o investimento. E, aí, há uma resposta a esse respaldo. As FA foram muito importantes nas nacionalizações mineiras e petroleiras, por exemplo. E, nesses cinco anos de governo Morales, um espírito nacionalista, que é a característica genérica desse processo, impregnou muito nas FA. Além disso, Morales tem um carisma especial na sua relação com as tropas, com a base dos militares, e acho que isso afiança sua relação com as FA. Já há uma identificação “pele a pele” desta base, que vem de setores populares, com o presidente. Além disso, o Evo foi muito hábil. Durante esses anos, ele visitou regularmente a maioria das unidades militares para tomar café da manhã, almoçar, dormir nos quartéis, junto com as bases militares. Além disso, existe a experiência de delegações de movimentos populares que puderam receber instruções militares nos quartéis em períodos curtos.

 

A experiência da esquerda com os militares, especialmente na América Latina, é muito traumática. Mesmo diante de um histórico recente de fidelidade militar na Bolívia, as FA lhe parecem dignas de tamanha confiança?

Eu não descarto que nas FA existam setores organizados que sofrem a influência do que foi toda a estratégia dos EUA para a América Latina. Entretanto, acho que foram tomadas medidas em relação a esses setores, que foram controlados internamente e que estão muito isolados nesse momento. Por outro lado, as FA bolivianas são diferentes em sua composição em comparação com Chile, Argentina ou Brasil, onde elas são institucionalmente muito consolidadas. Na Bolívia, elas são menos arraigadas a interesses de alguma oligarquia débil ou uma burguesia. Talvez esse elemento, o de não existir uma burguesia poderosa, torna débil a relação orgânica nesse sentido. Creio ser o processo político mesmo que está empurrando fortemente as FA a essa tomada de posição. O tema crucial é: elas não atuarão de maneira independente enquanto houver um movimento popular forte respaldando o Evo Morales. Provavelmente, caso se vá debilitando esse apoio – o que eu creio que está acontecendo, pois há um certo fracionamento do movimento popular, certas dúvidas em relação ao Evo Morales –, as FA começarão a ter papéis mais protagonistas.

 

A proximidade do Executivo com as FA pode ser um perigo para a investigação de crimes cometidos pela ditadura militar?

Sem dúvida. Porque nas FA há um forte espírito institucional. Ainda que se tenha avançado muito nesse sentido, em alguns casos há um certo atraso dos chefes militares em dar mais informações, em abrir seus arquivos reservados. Isso porque muitos desses militares estiveram no período ditatorial e ainda estão em algum nível de mando ou têm alguma influência. Entretanto, acho que, com o passar do tempo, vão ter que abrir todos os arquivos e, assim, esclarecer os crimes.

 

Por fim, o senhor destacaria alguma outra recente mudança importante nas FA bolivianas?

São importantes as mensagens dadas sobre a vontade de se integrar a essa proposta de força militar latino-americana. Proposta que já foi falada em reuniões da Unasul [União das Nações Sul-Americanas] e da Alba [Alternativa Bolivariana para as Américas]. É muito importante, porque acho que seria a única maneira de gerar forças armadas latino-americanas, em correspondência com o processo de mudanças, e romper as relações orgânicas com os EUA. Sobretudo no momento em que se está em curso uma política de blocos em nível mundial, aqui isso pode ter uma importância especial, especialmente em temas como as bases militares estadunidenses que há em alguns países e o das Malvinas, que logo vai explodir. Há petróleo ali e a Inglaterra está interessada em intervir nisso. O governo argentino rechaçou, o brasileiro e o uruguaio também. Há versões de que a Inglaterra não está preparada para responder a uma tomada das Malvinas por parte da Argentina. E se a Argentina tem respaldo das FA de seus vizinhos, seria muito diferente do que ocorreu em 1982, quando a recuperação das Malvinas foi revertida pela Inglaterra, apoiada pelos Estados Unidos.